Ciências & Cognição - Ano 02, Vol. 06, p. 150-151, nov/2005 - ISSN 1806-5821 © Instituto de Ciências Cognitivas (ICC) Submetido em 28/10/05 | Aceito em 18/11/05  |   Publicado on line em 30/11/05 - download da versão em pdf

Classificação: resenha . Como citar este artigo:

Bender, Alessandro (2005). Entre cognição e comportamento. Ciências & Cognição; Ano 02, Vol. 06, p. 150-151, nov/2005. Disponível em www.cienciasecognicao.org

 

Entre cognição e comportamento

Between cognition and behavior 

Alessandro Bender*

Filosofia da Mente: Neurociência, Cognição e Comportamento. João de Fernandes Teixeira. São Carlos, Editora Claraluz, 2005. ISBN 85-88638-11-8

 

Trata-se de uma coletânea extremamente polêmica, composta de sete artigos inéditos onde o autor, mais do que expor teorias prontas defende pontos de vista originais. Os temas que compõem o subtítulo, quais sejam, a neurociência, a cognição e o comportamento, são amplamente contemplados.

O primeiro artigo trata do papel do mapeamento cerebral na discussão do problema mente-cérebro, discutindo a predominância (ou não) de modelos do cérebro sobre modelos computacionais da mente. De especial interesse é a análise que o autor faz do funcionalismo. Este seria compatível com versões equipotencialistas do cérebro contrariando a tendência contemporânea ditada pela neurociência cognitiva que é o localizacionismo funcional. Uma conciliação entre estes pontos de vista divergentes advém de uma crítica do que João Teixeira batiza de funcionalismo digital, ou seja, o funcionalismo baseado em arquiteturas computacionais do tipo von Neumann.

O segundo ensaio é bastante técnico, escrito para aqueles que têm uma noção básica de ciência da computação, pois nele o autor apresenta novos horizontes para a computabilidade baseando-se em lógicas não-clássicas. De difícil leitura, João Teixeira recomenda ao leitor (já na introdução) que não tenha essa base que salte para o terceiro, uma vez que todos eles podem ser lidos independentemente.

O terceiro artigo fala de emoções e apresenta a neurofenomenologia de Varela. Uma comparação entre a abordagem das emoções feita por Damásio (Em busca de Espinosa) e Sartre (Esboço de uma teoria das emoções) é o tema central desse texto mostrando em que sentido a neurofenomenologia pode tornar convergentes a neurociência e a fenomenologia.

Os ensaios que compõem a segunda parte (comportamento) mostram que é possível pensarmos uma continuidade entre behaviorismo radical e ciência cognitiva. Esta é a motivação do primeiro ensaio que abre essa seção, intitulado “Behaviorismo Radical e Ciência Cognitiva”, onde esta questão é abordada do ponto de vista histórico. A descontinuidade entre ciência cognitiva e behaviorismo radical é apresentada como fruto de um preconceito manualesco herdado de Chomsky. O ensaio seguinte, “A teoria do pensamento no behaviorismo radical: vagando entre Skinner, Dennett e Calvin” constitui um esforço para conceber o que teria sido uma teoria do pensamento no behaviorismo radical se Skinner tivesse conhecido o trabalho de dois cientistas cognitivos contemporâneos: Daniel Dennett e William Calvin. Ao mostrar que o behaviorismo radical pode acomodar uma teoria do pensamento, João Teixeira procura desfazer uma típica caricatura simplificadora (entre as muitas existentes) acerca da psicologia skinneriana.

O terceiro ensaio da seção sobre comportamento “Mais uma nota sobre o operante” rediscute essa noção – a mais importante e mais complexa do behaviorismo radical – à luz de concepções contemporâneas. Finalmente, o quarto ensaio, escrito para analistas do comportamento e intitulado “As bases neurais da equivalência de estímulos” empreende a fusão entre pesquisas em neurociência cognitiva e a teoria da equivalência de estímulos tal como é apresentada nas teorias de Sidman e Tailby, reforçando a idéia de uma continuidade entre ciência cognitiva e behaviorismo radical.

A originalidade da obra está na teoria que serve de pano de fundo para todos esses ensaios, que o autor denomina behaviorismo neurocognitivo. Segundo Teixeira, “o behaviorismo neurocognitivo fundamenta-se em duas premissas básicas. A primeira (capítulos I a III) consiste em sustentar que o comportamento inteligente pode ser modelado e estudado computacionalmente (usando robôs dotados de lógicas clássicas ou não-clássicas). A segunda, que o torna um behaviorismo sem caixa preta, consiste em sustentar que o cérebro e os estados mentais (pensamentos e emoções) podem ser considerados variáveis ambientais (capítulos V a VII)”.

Um livro inquietante e que é, antes de mais nada, uma grande provocação.

Nota sobre o autor

*Bender, A. - é professor, escritor e especialista em Comunicação Estratégica Organizacional. Mestrando em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos, pesquisa As Bases Neurais do Sentimento Estético. E-mail para correspondência alessandrobender@gmail.com