Computação e cognição Computation and cognition
Marcelo Masson Maroldi
IntroduçãoNos últimos cinqüenta anos, pelo menos, temos observado um evidente avanço da ciência no nosso dia-a-dia. De maneira geral, tecnologia, historicamente restrita a pequenos grupos econômicos, teve seu uso intensificado sobremaneira e foi propagada amplamente, seja através da popularização dos produtos tecnológicos, seja através da difusão das informações que a produz. Todavia, embora avance rapidamente em inúmeros segmentos de produção científica e industrial, alguns setores da tecnologia de ponta apresentam obstáculos instransponíveis para continuidade de sua evolução quando afastadas da argumentação das ciências humanas, como a filosofia, e de sustentação e respaldo sócio-cultural, principalmente. Ainda que computadores ocupem posição de destaque no cenário tecnológico mundial e sua utilização tenha sido estendida ao cidadão comum, que prontamente a absorveu, o ambiente de inteligência artificial [1] , apresentado em filmes, livros e revistas nos últimos vinte anos parece distante da realidade e do estágio tecnológico que esta ciência se encontra de fato. Ademais, parece, em princípio, que a inteligência artificial parece se preocupar mais com aspectos formais e tecnológicos para seu desenvolvimento do que com a absorção de elementos teóricos a seus modelos. A robótica, em especial, almejando reproduzir rapidamente em máquinas comportamento similar ao do ser humano, acaba por se esquecer da análise fundamental dos mecanismos cognitivos a serem replicados nestes objetos. Mais especificamente, a robótica e mesmo a IA como um todo, por vezes, chegam a minimizar alguns estudos envolvidos no desenvolvimento de funções cognitivas, ora atribuindo menor valor ao estudo da filosofia da mente, da neurociência e da biotecnologia, ora ignorando completamente a psicologia e estudos correlatos. Em outras palavras, eles parecem (querer) “reproduzir os padrões de comportamento humano sem reproduzir o mecanismo que produz o comportamento humano” (Clancey, 1995). Isso é notório em cognição desenvolvida em computadores. Essa negligência, entretanto, produz um cenário interessante, com visões distintas concorrentes: a IA festeja seus resultados e seus sucessos, embora outros segmentos, como a neurociência cognitiva, reivindicam para si os principais avanços obtidos no assunto, e enquanto os observadores mais atentos, entretanto, vêem poucos avanços reais em cognição artificial de modo geral [2] . Computação e cognição“Computação é o fundamento central da ciência cognitiva moderna.” [3] (Chalmers, 1993) Mas: “Nós não sabemos como projetar uma máquina hoje que respeite nossas hipóteses atuais sobre a cognição humana.” [4] (Clancey, 1995) A primeira frase, do filósofo da mente David Chalmers, evidencia o papel da computação no estudo atual da cognição humana. Sendo este um conceito fortemente aceito dentro da IA, não há de se estranhar, portanto, que esta ciência - e mesmo antes dela se estabelecer formalmente como tal – tenha profetizado e reivindicado para si um grande número de respostas às questões da ciência cognitiva, e que ainda ecoam maciçamente nos campos da filosofia e da computação, da computação clássica principalmente. De modo geral, as perguntas formuladas podem ser condensadas em entender se a primeira citação é possível, e a segunda, de que modo implementar, em sistemas artificiais, como computadores, mecanismos cognitivos encontrados nos cérebros humanos. Se respondidas essas perguntas, para muitos intratáveis, afirmativamente, devem-se estabelecer, então, as bases conceituais de tais respostas, isto é, estariam nossas máquinas realmente implementando cognição tal qual a cognição humana?, ou esta possibilidade seria restrita somente as mentes dos seres humanos? Nesse último caso, então, o que estariam computando nossas máquinas? Estaria o computador pensando, criando, sendo consciente? Quais os efeitos desta computação em máquinas para o estudo da psicologia e da filosofia? Se nossas respostas concordarem com a tese de Clancey, estariam sendo inúteis as pesquisas relacionadas à cognição humana simuladas [5] em computadores? Que rumo as pesquisas atuais devem assumir? Que tipo de computação supõe-se ser a mais adequada a esta árdua pesquisa? As perguntas são muitas, as respostas não especulativas, poucas. Ada Lovelace, amiga e colaboradora de Charles Babbage [6], afirmou que os computadores não podem ter a pretensão de originar nada por si só mas apenas realizar tarefas que nós saibamos como fazer e ordenemos a eles que façam, segundo o modo como ordenamos (isto é, como os programamos) [7] . Se isso for verdade sempre, poderia algum computador reproduzir mecanismos como criatividade ou julgamento? Ser consciente ou sentir medo? Não seria a computação uma ciência ainda muito recente para que sejam anunciadas suas limitações? E quando, porventura, forem estabelecidas novas formas de computar, isso ainda será verdade? Vamos admitir que se conheça totalmente algum dos processos cognitivos humanos, digamos, a criatividade. Se cognição for independente do cérebro, o que nos impediria de aplicarmos tal conhecimento em máquinas, se a tecnologia não for um problema? A tese de que algumas habilidades humanas não podem ser replicadas computacionalmente encontra, ainda agora, grande número de simpatizantes, por exemplo, o importante filósofo John R.Searle. Embora computadores atualmente joguem xadrez, encontrem a saída de um labirinto, construam versos poéticos e componham sinfonias para piano ao estilo barroco, seus modelos de implementação ainda se assemelham muito aos paradigmas baseados em execução procedimental de tarefas e padrões, e sabemos, a mente humana é muito mais que isso. Cognição, segundo o dicionário Houaiss 8 é a “capacidade de adquirir conhecimento”, ou simplesmente “conhecimento” [9] . No meio acadêmico, o termo é empregado geralmente associado à “investigação dos processos mentais superiores” [10] (Mello, 2003) . Embora tenha tido diversos posicionamento ao longo da história (Hume, Locke, Wiliam James e vários outros), teve seu impulso potencializado após a elaboração do teorema da máquina de Turing [11], em 1936, a proposta de uma máquina hipotética capaz de computar qualquer algoritmo matemático (ou lógico) sem intervenção humana. A revolução cognitiva, a partir da década de 1950, possibilitou que os processos cognitivos fossem entendidos, ainda que parcialmente, e investigados em máquinas em diversos centros de pesquisa e universidades por todo o mundo. Parte desse desenvolvimento deve-se a maquina de Turing. Uma das principais contribuições da ciência cognitiva foi o fato de sugerir – ou até mesmo explicar timidamente – que a vida mental é baseada em um sofisticado sistema de informação e computação [12]. Crenças, sentimentos, lembranças são informações armazenadas em bancos de dados [13] no cérebro segundo padrões pré-estabelecidos de armazenamento. Essas informações podem ser resgatadas, processadas e transformadas, o que poderíamos denominar como pensar. Mecanismos de feedback informacional realimentam e atualizam a imagem contida neste gigantesco banco de dados [14] . Tal imagem, entretanto, não seria de fato a imagem da informação [15], mas, provavelmente, uma receita de como (re)construir tal imagem [16] . Esse funcionamento, análogo a de um computador, foi suficiente para nomear tal teoria de teoria computacional da mente (esta descrição encontra-se de modo quase idêntico em Pinker, 2004). A teoria foi proposta inicialmente por Putnam e desenvolvida por diversos outros pesquisadores da mente, entre eles Jerry Fodor. A IA (e todas as áreas relacionadas) a absorveu, vendo representado nela a confirmação da supremacia das ciências de computação (e da lógica, por exemplo) sobre as demais disciplinas que se dedicam a este assunto.
David Hume , Investigação Sobre o Entendimento Humano Tal teoria não se preocupa em entender a forma de aquisição de conhecimento e reduz as experiências exteriores em inputs do sistema cerebral, no mesmo nível de igualdade de qualquer outro input (por exemplo, inputs de saída de outros processos cognitivos em paralelo [18]). Uma experiência nada mais é que uma ação que resultou em um conjunto particular de informações a serem processadas (e eventualmente armazenadas ou transformadas). Ela descreve, apenas, o modo com funciona a mente humana em termos de processamento de informação. Admitindo-se esta representação como verossímil, podemos, portanto, reproduzir tais mecanismos em cérebros artificiais, isto é, maquinas, pois, nesse caso, o relevante é o próprio modelo (isto é, como ele funciona), não o material em que este se encontra sustentado, ou a necessidade de uma alma imortal, ou nada que não seja tratamento de informação. Sendo possível sua replicação em ambientes artificiais, o estudo investigativo do modelo computacional da mente auxiliaria no aprendizado dos mecanismos cognitivos humanos sem recorrer a elementos míticos ou suposições jamais possíveis de comprovação. Ainda que a hipótese seja simplista demais para um processo tão complexo como a cognição humana, é uma tentativa de pesquisa científica que procura uma solução, ao invés de simplesmente invalidar a reprodução de cognição considerando-na particular das mentes humanas e nunca replicáveis. Segundo a teoria, seria possível explicar os processos de pensamento, de criação e quaisquer outros desprezando o cérebro, o que implicaria em inferir que inteligência, criatividade, emoção e julgamento poderiam ser obtidos também em outros materiais, como chips de silício ou outro material com as propriedades físico-químicas necessárias, isto é, transformaria seres humanos em máquinas de processamento informacional [19], justamente o que parecia negar (e temer?) Ada Lovelace. A mente ocorre no cérebro, mas não se reduz a este. O funcionalismo e a teoria computacional da mente, unidos, deram novo ânimo a robótica (e a IA), de modo que objeções em massa não puderam desestabilizar e desacreditar tais teorias, que, renovadas, mantém sua força até hoje. A implementação de uma computação cognitiva, portanto, estaria restrita a identificar e aplicar uma seqüência lógica de transformações, segundo eventos probabilísticos, aleatórios, causais, ou outros, em um conjunto finito de dados, a informação. Uma vez que o banco de dados da mente humana, embora imenso, seja finito, a combinação de dados gerados a partir deles não o é. Isto é possível em um modelo muito avançado e estável como o nosso, e é um dos primeiros sinais da dificuldade de projetar o modelo artificialmente. Além disso, certamente temos que considerar recorrência, loops e vários outros mecanismos (computacionais) que permitem que ele seja tão sofisticado quanto é. Todavia, o fato de acreditarmos que criatividade, imaginação e inteligência são meramente formas de processamento de informação não significam, entretanto, que eles realmente poderão ser replicados em computadores. Um outro sinal da dificuldade encontrada é a questão semântica, apresentada e discutida por inúmeros filósofos e pesquisadores da mente. Segundo estes, computadores possui apenas processamento sintático, não semântico, o que implicaria em limitações grosseiras e significativas se comparadas à mente humana. Harnad (1994) bradou que: “computation is just interpretable symbol manipulation; cognition isn't.” No caso de sistemas computacionais inteligentes que constroem músicas, a noção de semântica é especialmente interessante de ser estudada. Compositores de grande importância, como Stravinsky, sustentaram que não há semântica na música, apenas sintaxe (Oliveira, 2002). O fato é que existem – e já são muitos – os softwares que implementam composição musical, sintática somente e, apesar das supostas impossibilidades da computação atual, obtiveram-se resultados expressivos e relevantes [20]. A margem de tantas dúvidas, é necessário perguntar: como estudar cognição? Para os entusiastas da computação, bastaria responder a pergunta de como simular a cognição através de um modelo (de organização, de dados e de controle) e observar o que ocorre. Utilizam-se computadores para entender a mente humana, em um caminho contrário ao de entender a última para construir os primeiros (e contrária à proposta da IA. Teria ela falhado?). Alguns autores sustentam que uma organização dos processos mentais, mesmo que não idêntica a da mente humana, poderá produzir resultados iguais aos do processamento humano, o que, assim, implicaria logicamente em identidade entre computadores e mentes humanas ( inputs iguais gerando outputs iguais). Se isso for possível, certamente será possível definir e implementar diversos modelos alternativos para arquiteturas cognitivas, como softwares concorrentes em uma prateleira de loja. Entretanto, outros autores sustentam o argumento de que só será conseguido replicar funções cognitivas quando forem replicados modelos cognitivos, isto é, o modo como a cognição se dá e não somente o resultado de tal cognição. Por outro lado, estudamos cognição atentos sempre a computação clássica o que significa que nossos robôs são feitos respeitando as premissas clássicas, entre outras, para armazenamento de memória, aprendizado e gerenciamento da informação como um todo [21], o que pode ser um erro grave. Clancey (1995) adverte: “o conhecimento não pode ser reduzido às representações de comportamento ou de ambiente” [22] . Referências BibliográficasOliveira, C. (1967). Dicionário Mor da língua portuguesa. São Paulo: Livro'Mor. Chalmers, D.J. (1993) A Computational Foundation for the Study of Cognition. Disponível no World Wide Web : http://consc.net/papers/computation.html . Clancey,W.J. (1995). A boy scout, Toto, and a bird: How situated cognition is different from situated robotics. Em: Steels, L. e Brooks, R. (eds.) The "artificial life" route to "artificial intelligence": building situated embodied agents . (pp. 227-236). Hillsdale, NJ : Lawrence Erlbaum Associates Harnad, S. (1994). Computation is just interpretable symbol manipulation: cognition isn't. Special Issue on What is computation. Minds Mach., 4, 379-390. Houaiss, A e Villar, M.S. (2001). Minidicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva. Hume, D. (1973). Investigação Sobre o Entendimento Humano. Em: Os Pensadores, livro XXIII, São Paulo: Editora Abril Cultural. Mello, M. (2003). Reflexões sobre Lingüística e cognição musical. Tese (Mestrado), Campinas: Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas. Oliveira, L.F. e Zampronha, E.S. (2002). El computacionalismo clásico y el modelo de una mente creativa en composición musical. Em: Martínez, I.C. e Musumeci, O. (eds.) Proceedings Reunión anual de la Sociedad Argentina para las ciéncias cognitivas de la musica. Buenos Aires. Pinker, S. (2004). Tabula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras. Teixeira, J.F. (2005). Filosofia da mente: neurociência, cognição e comportamento . São Carlos: Editora Claraluz. Notas sobre o autor:" – M.M. Maroldi é bacharel em Ciências de Computação (Universidade de São Paulo – USP; Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação – ICMC). Endereço para correspondência: Alameda das Azaléias, 727 - Bairro Cidade Jardim, São Carlos, SP 13566-500. E-mail para correspondência: marcelomaroldi@yahoo.com.br . Notas[1] Expressão criada pelo matemático John McCarthy nos anos 50 e que se refere ao ramo da ciência da computação que investiga os mecanismos necessários para que um computador possa pensar (ou ser inteligente ) e agir dessa forma. A partir de agora, referenciada por IA, apenas. [2] Não seria uma questão de expectativas nascidas de uma falsa propaganda da IA? [3] Tradução nossa. [4] Tradução nossa. [5] Somente enquanto simular cognição em neurônios e estruturas cerebrais for somente uma utopia . [6] Idealizador, no século XIX, da máquina de Babbage, engenho que se assemelharia a um computador digital e que nunca foi construído. [7] Seria esse um desejo encoberto de manter os seres humanos em um patamar superior as máquinas? [8] Minidicionário Houaiss da língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, primeira edição, 2001. [9] Para o dicionário Mor da língua Portuguesa, é a operação intelectual cujo objetivo é o conhecimento. [10] Pensamento, razão, consciência, percepção, entre outras. [11] Ver Alan Turing e o teste de Turing. [12] Novamente: isso não significa dizer que saibamos qual é esta computação e como a mesma computa. [13] Bom exemplo de uso de um termo computacional que, migrado, passa a ser aplicado também a aspectos da mente/cérebro e que, juntamente com diversos outros, são incorporados ao texto no decorrer deste trabalho. [14] Informacional nesse caso (e não relacional!). [15] Uma imagem no sentido de espelhamento real. [16] A imagem mental como ela se apresenta a mim, ou seja, a imagem a qual eu tenho acesso (ou, a qual o cérebro me disponibiliza ). [17] Grifo nosso. [18] Ver o modelo de múltiplas camadas ( multiple drafts model ) do filósofo Daniel Dennett e a máquina Joyceana por ele sugerida. [19] A analogia cérebro-hardware, mente-software é quase imediata nesse ponto. [20] Nesse caso, se preocuparam apenas com os outputs gerados, como se segue no texto. [21] Além, evidentemente, da matemática e da lógica clássica, que as sustentam. Teixeira (2005, p.43-50) menciona a possibilidade da teoria da computação constituir seu fundamento em uma lógica não-clássica o que ele conclui dizendo que as conseqüências seriam devastadoras, “a aritmética entraria em colapso,...e daí?” E conclui: “Se este é o cenário, azar da matemática, e azar da teoria ortodoxa da computação!” [22] Tradução nossa.
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