A cognição social e a construção da relação educador-bebê na crecheSocial cognition and the construction of infant-caregiver affective relationship Leila Sanches de AlmeidaUniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Programa de Pós-Graduação de Estudos Interdisciplinares de Comunidades e Ecologia (EICOS), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Nas três últimas décadas, continua crescendo a participação das mulheres brasileiras no mercado de trabalho. Segundo dados do PNAD (1999), 42,23% das mulheres brasileiras residentes na Região Sudeste em 1998 tinham algum tipo de ocupação profissional. Deste total, 62,61% eram trabalhadoras que se encontravam em idade fértil, mulheres de 15 a 39 anos. É provável que muitas delas tenham enfrentado o dilema de encontrar uma solução apropriada para assegurar os cuidados diários de seus filhos durante o seu horário de trabalho. Neste panorama, a creche coloca-se como uma das opções das mulheres trabalhadoras ou estudantes. Entretanto, nem as transformações sociais e nem os questionamentos recentes sobre os papéis sociais do homem e da mulher, conseguiram desconstruir por completo a concepção de que o cuidado e a educação da criança pequena competem apenas à família. Clarke-Stewart e colaboradores (1994) preconizam ser de suma importância que se caracterize a creche como um contexto que oferece experiências enriquecedoras para a criança, para a sua vida e para o seu desenvolvimento. No Brasil, estudiosos da área da educação e do desenvolvimento infantil têm reconhecido a diversidade de ambientes, de necessidades e de formas de relações que as crianças pequenas atualmente vivenciam em seu cotidiano, passando a centrar suas investigações no objetivo de como promover um atendimento de qualidade nas creches e pré-escolas, sob vários aspectos (Rossetti-Ferreira et al. , 1998; Abramowicz e Wajskop, 1995; Campos et al. , 1995; Oliveira e Rossetti-Fereira, 1993, 1986; Kramer, 1993; Vitória e Rossetti-Ferreira, 1993). Coloca-se, assim, a importância de estudos sobre o processo de formação de relações que visem à qualidade das relações estabelecidas com as crianças no cotidiano, especialmente nos ambientes que oferecem cuidado/educação coletiva. Logo, o presente estudo tem como objetivo apontar a participação de valores sociais, que integram a cognição social, no processo de construção da relação afetiva entre bebês e educadoras de creche. A abordagem da Rede de Significações e a formação de relaçõesGrande parte das investigações em psicologia do desenvolvimento sobre relações afetivas entre educadoras de creche e bebês centra suas considerações nos comportamentos que a criança dirige para a educadora. Aqui neste estudo, considera-se o processo de interação social como básico para o desenvolvimento humano, do nascimento à morte (Amorim et al ., 2000). As pessoas têm uma relação dinâmica com o meio social. As relações sociais são dialógicas, ou seja, são um espaço onde ocorrem trocas comunicativas e negociações (Lyra e Rossetti-Ferreira, 1995). Elas possibilitam a construção gradativa de significados e conhecimentos sobre o mundo exterior e o próprio “eu” (Rossetti-Ferreira et al ., 2004; Almeida, 2003; Amorim et al. , 2000). Entende-se que o bebê humano é capaz de estabelecer uma relação dialógica anterior a qualquer linguagem (Lyra e Rossetti-Ferreira, 1995; Fogel, 1993; Trevarthen, 1977). O recém-nascido, especialmente do ponto de vista motor, é imaturo e incompleto. Ao nascer, devido à discrepância entre o seu desenvolvimento motor e sua condição de ser social , não é autônomo em suas ações, o que cria um espaço para a mediação de um parceiro adulto no cotidiano. É o adulto quem vai garantir sua sobrevivência e gradativamente inseri-lo em determinados contextos, significando o mundo para ele. Simultaneamente, também atribui significados para o bebê – para a sua atividade postural, suas emoções e aos comportamentos que manifesta de um modo geral (Werebe e Nadel-Brulfert, 1986) – o que propicia o início do processo de diferenciação do outro. A interação social conduz o desenvolvimento psíquico do bebê. Ela é esse espaço para as trocas comunicativas que ocorrem no aqui-e-agora, onde determinados comportamentos de ambos os participantes são destacados e assumem significados que foram construídos em conjunto, ao longo desse processo. O desenvolvimento humano é, portanto, fruto de um processo dialógico e histórico que constrói novas formas de conhecimento. A abordagem da RedSig (Rossetti-Ferreira et al., 2004) toma a relação afetiva como uma construção dialógica, mediada por pessoas (a família, os amigos, entre outras), que envolve diversos contextos sociais e conteúdos da matriz sócio-histórica (sociais, econômicos, políticos, históricos e culturais). As pessoas significam o processo de interação social através da construção de sentidos, individuais, e do uso de significados, sócio-históricos (Vygotsky, 1934/1991). Um instrumento privilegiado que possibilita a apreensão e a materialização dessas significações é a linguagem. À medida que o homem utiliza e se apropria das diversas linguagens existentes (gestual, oral, escrita, etc.), que servem como mediadoras de sua relação com o meio, passa a ter acesso a um vasto conjunto de significados historicamente produzidos, que integram a sua cognição. Contudo, enquanto um ser ativo, ao se apropriar dessas linguagens, desses significados presentes em uma determinada cultura, ressignifica-os, conferindo-lhes um outro sentido (individual) que co-existe com o significado sócio-histórico. No entanto , não se deve desconsiderar que até os próprios significados sócio-históricos, transmitidos por valores, crenças e normas sociais são instáveis, já que podem assumir outros significados (Hall, 2001). Isto porque eles remetem a pessoa a outros significados (os excludentes, os suplementares) que são mobilizados no processo de significação, em função do contexto, das atividades e relações do indivíduo. Os conteúdos da matriz sócio-histórica são polifônicos e polissêmicos. Através das relações sociais, os participantes assumem, negam e/ou recriam os significados que lhes são atribuídos, os quais são ressignificados e integrados às suas ações e funções psicológicas, transformando-os e abrindo novas possibilidades de desenvolvimento (Oliveira e Rossetti-Ferreira, 1993). Cada pessoa negocia os significados que atribui ao outro, os que lhe são atribuídos, além daqueles que são atribuídos à situação como um todo, de acordo com os circunscritores que se impõem no momento. São considerados circunscritores os fatores que atuam direcionando o processo de significação, limitando o leque de opções de significados ou sentidos a serem atribuídos (Rossetti-Ferreira et al. , 2004). Tem-se, então, que o indivíduo constrói a sua individualidade e participa da construção da individualidade dos outros. Ao mesmo tempo em que se transforma, transforma também o meio em que está inserido. O meio aqui referido inclui não apenas as características físicas e sociais presentes no aqui-e-agora das situações, mas também outras pessoas e a cultura, com suas normas e valores sociais. Os diversos aspectos do ambiente físico, cultural e simbólico que circundam, por exemplo, o bebê na creche (espaço físico, valores, atitudes, normas, etc.) concretizam e refletem uma história cultural. As pessoas desempenham vários papéis, em (e de acordo com) ambientes culturalmente organizados e socialmente regulados (Valsiner, 1987). Tem-se, então, que os valores sociais, enquanto significados sócio-históricos presentes na cognição social, atravessam o processo de construção da relação educadora-bebê, podendo ser negociados e, até mesmo assumirem outros sentidos ao longo desse processo. Simultaneamente os valores sociais, na sua função de circunscritores, imprimem as direções possíveis à construção da relação. Cabe esclarecer que, neste estudo, definiram-se os valores sociais como as normas, crenças e os juízos presentes nos relatos sobre o processo de construção da relação educadora-bebê na creche. MetodologiaA presente investigação foi realizada em uma creche universitária, com quatro bebês da faixa etária de 4-9 meses, suas educadoras e suas mães. O estudo atendeu às normas e procedimentos da Resolução 196/1996 do CNS-MS. Para a investigação do processo de construção das relações afetivas entre as educadoras e os bebês, foram realizadas 60 entrevistas com as educadoras e as mães das crianças durante os primeiros seis meses da inserção dos bebês na creche (Almeida, 2001). Todos os participantes do estudo assinaram um termo de consentimento informado. As entrevistas eram semi-estruturadas e versavam sobre os temas percepção da criança, de sua saúde, alimentação, sono, de seu relacionamento com a educadora e com as outras crianças, do relacionamento educadora-família da criança e sobre a história familiar anterior à entrada da criança na creche . Após diversas leituras das entrevistas integralmente transcritas, procedeu-se à análise de conteúdo, a partir dos pressupostos teórico-metodológicos da RedSig. Obteve-se 17 recortes de entrevistas cujo conteúdo expressava valores sociais sobre o processo de construção da relação afetiva educador-bebê. Dez trechos foram retirados de entrevistas feitas com as educadoras e sete extraídos de entrevistas realizadas com as mães dos bebês. ResultadosDe um modo geral, observou-se nas entrevistas a presença de crenças e juízos de valor sobre cuidados infantis, a relação afetiva mãe-bebê, o papel da educadora e alimentação de bebês. Os valores que atravessaram as entrevistas feitas com as mães se situaram principalmente na esfera dos cuidados infantis e na da relação afetiva mãe-bebê. Eles foram acompanhados de dois sentimentos básicos: o sentimento de culpa e sentimento de perda do amor da criança. Nas entrevistas realizadas com as educadoras, os relatos continham crenças e juízos de valor principalmente sobre cuidados infantis, o papel do educador e a alimentação de bebês. A seguir têm-se as crenças e os juízos de valor que foram construídos nas entrevistas pelas mães e pelas educadoras. Uma das mães relatou os valores que lhe foram transmitidos por sua própria mãe sobre creche: creche é um lugar onde judiam das crianças; elas ficam confinadas, sujas e choram :
Ela queixou-se que esses sentidos (de sua matriz sócio-histórica) estão impregnando, atuando como circunscritores, na sua forma de significar a experiência que ela está vivendo com a entrada de sua filha para a creche. Estão lhe causando ansiedade, angústias, sentimentos de culpa e de perda do amor da filha, sentimentos explicitados em suas falas ao longo das entrevistas. As demais mães entrevistadas também se mostraram culpadas por terem que deixar seus filhos na creche. Uma, porque considerava que criança pequena deve permanecer junto à mãe. Nota-se que ela fala como se considerasse que a permanência de seu filho na creche foi um mal necessário:
Já a outra, porque se sentia ameaçada de perder o amor da filha. Esta mãe optou por deixar sua filha na creche porque ela acha que as educadoras têm preparo técnico para cuidar das crianças:
Esse significado técnico que ela atribuiu às educadoras parecia lhe garantir o lugar de figura principal de afeto de sua filha e relacionar-se a um sentimento de perda de amor que lhe ameaçava. Por fim, a quarta mãe entrevistada sentia-se culpada por não ser a figura exclusiva de cuidados do seu bebê. Para garantir para si própria o controle com os cuidados oferecidos à criança, ela tomou como sua principal preocupação, isto é, como fio condutor de suas relações sociais na creche, a alimentação do seu filho na instituição. Ela temia que a criança pudesse sentir fome e não ser adequadamente atendida. Assim, ao ser indagada como estava sendo a adaptação do bebê e dela à creche, respondeu:
Quanto às educadoras, elas também questionavam a conveniência de se separar o bebê de sua mãe nos primeiros meses de vida. Uma delas, disse que os pais das crianças de creche, em geral, têm um sentimento de ambivalência quanto ao fato de seus filhos freqüentarem creche. Ela atribui esta ambivalência à separação, que considera uma situação difícil:
O processo de construção da relação das educadoras com o bebê (e sua família) na creche parecia ser atravessado pelo discurso de que lugar de se criar criança pequena é em casa, então a adaptação de uma criança e sua família à creche é um processo dolorido:
Outro tema que atravessou o processo de construção das relações entre uma das educadoras e seus bebês foi a alimentação . Ela atribuía significados para o comportamento das crianças de acordo com o tipo de alimentação que elas recebiam. Assim, o bebê que era amamentado no peito não dormia continuamente porque devia sentir mais fome (que os bebês que não mamam no peito). Ele também precisava mamar para dormir e não gostava de beber suco:
Já o outro bebê sob sua responsabilidade, era descrito como tendo um comportamento surpreendente pois, mesmo continuando a ser amamentado, era uma criança tranqüila, que aceitava a comida que lhe era oferecida e comia bem:
É como se o bebê de creche, por comer bem, não precisasse ser amamentado. DiscussãoAs educadoras levam para o processo de construção de sua relação com o bebê valores presentes na sua matriz sócio-histórica e os negociam com as mães. As mães das crianças, figuras mediadoras da relação criança-educadora, por outro lado também negociam com a educadora, demais funcionários da creche e sua família os sentidos que constroem sobre cuidados infantis, e suas representações sobre creche. A dialogia, tal como destacada por Fogel (1993) e Trevarthen (1977), entre outros, parece ser a característica fundante das relações. Vê-se que as pessoas participam do processo de interação social atribuindo e negociando sentidos e significados aos eventos e às pessoas (inclusive a si mesma), tal como postulado por Rossetti-Ferreira e colaboradores (2004). Assim, as relações são construídas. A importância de se reconhecer a presença de normas, crenças e juízos de valor nesse processo está no fato deles nos apontarem que a construção de uma relação não se restringe apenas a uma díade, tal como o bebê e a educadora de creche. Outras vozes também se fazem presentes. No caso deste estudo, a construção das relações educadoras-bebês foi mediada tanto pela participação ativa das figuras maternas das crianças (com suas concepções sobre cuidados infantis e sobre a relação mãe-filho), como, por exemplo, pelas vozes de outras pessoas que atravessaram as falas e foram absorvidas enquanto o discurso de mães e educadoras (Almeida, 2001). As relações interpessoais devem ser consideradas como sistemas de comunicação em desenvolvimento. Vygotsky (1934/1991) já destacara a importância decisiva das relações sociais enquanto um processo que gera para os participantes sentidos e significados que foram produzidos e são compartilhados na interação social. Logo, os valores e os significados transmitidos nos planos social e histórico colocam-se entre os elementos básicos da cognição social que constroem as relações sociais e o conhecimento de si mesmo, do outro e dos fenômenos do mundo. Referências bibliográficasAbramowicz, A. e Wajskop, G. (1995). Creches – atividades para crianças de zero a seis anos. São Paulo: Moderna. Almeida, L.S. de (2001). As transformações da relação afetiva entre o bebê e a educadora de creche nos relatos de educadoras e mães. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Saúde Mental , Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, USP, Ribeirão Preto, SP. Almeida, L.S. de (2003). Rede de relações: sociais: um processo dialógico. Documenta, 8 (12-13), 97-107. Amorim, K.S.; Vitória, T. e Rossetti-Ferreira, M.C. (2000). Rede de significações: perspectiva para a análise de inserção de bebês na creche. Cad. Pesq. , 109, 115-144. Campos, M.M.; Rosemberg, F. e Ferreira, I.M. (1995). Creches e pré-escolas no Brasil . 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