A relevância dos softwares educativos na educação profissionalThe relevance of the educational softwares in the professional education Sandro César Silveira Jucá " Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará (CEFET-CE), Fortaleza, Ceará, Brasil
Centenas de anos foram marcados pela presença do quadro negro, do giz e do livro como instrumentos tecnológicos mais utilizados no ensino para a mediação pedagógica. No entanto, nos últimos quarenta anos presenciamos a difusão de um artefato tecnológico, uma ferramenta complexa que está se expandindo, tomando conta de, praticamente, todas as instâncias educacionais: o computador. A união entre os meios de comunicação e os computadores está revolucionando a educação e, cada vez mais, as tecnologias estão permeando as ações pedagógicas que colocam os professores diante do desafio de rever os paradigmas sobre a educação, bem como de perder a insegurança a respeito do contato com o novo. Nesse sentido, a Internet surgiu como parte dessa união e, segundo Alava (2002) possibilita experiências e atividades pedagógicas inovadoras, o que gera novos conceitos e novos modos de aprendizagem. Atualmente, as atenções e questionamentos se voltam para o computador, porque é o mais novo instrumento de mediação a fazer parte do cenário educacional. Os elementos que mais contribuíram para que o computador se tornasse um dos mais versáteis mediadores tecnológicos no campo da Educação foram os programas e os protocolos de comunicação, que recebem o nome de software . Com a introdução do computador como mediador didático, desenvolveram-se softwares específicos para serem utilizados em contextos de ensino-aprendizagem, o que não afasta o fato de que vários softwares desenvolvidos para outras finalidades, também são utilizados no processo de ensino-aprendizagem. Com isto, tanto os softwares específicos para o ensino, quanto os vindo outras áreas, e aplicados no ensino, passaram a ser denominados softwares educacionais, turvando um pouco a exata abrangência do termo. Neste momento histórico, as novas tecnologias mostram que, quando utilizadas adequadamente, auxiliam no processo da construção do conhecimento, tornando o processo de ensino-aprendizagem mais estimulante e mais eficaz. Por outro lado, verifica-se, também, no ensino médio e universitário, uma tendência de manter os métodos de ensino tradicional, sem o auxílio de ferramentas computacionais, com a alegação de perda de tempo e/ou a desvinculação do assunto abordado. As novas tecnologias não dispensam a figura do professor, ao contrário, exigem deste, que adicione ao seu perfil novas exigências bem mais complexas tais como: saber lidar com ritmos individuais dos seus alunos, apropriar-se de técnicas novas de elaboração de material didático produzido por meios eletrônicos, trabalhar em ambientes virtuais diferentes daqueles do ensino tradicional da universidade, adquirir uma nova linguagem e saber manejar criativamente a oferta tecnológica. Conseqüentemente, os professores universitários devem rever os valores e métodos do ensino tradicional e, passar a avaliar em que momentos do processo ensino-aprendizagem essas tecnologias podem ajudar, como também, os benefícios que podem proporcionar na construção do conhecimento. Nesse sentido, Litwin (1997) destaca a importância de entendermos as novas tecnologias digitais como sendo um produto sócio-cultural, ferramentas físicas e simbólicas que servem de mediadores na interação do homem com o meio, no sentido de compreendê-lo e transformá-lo. Segundo Freire (1975), a educação visa não apenas inserir o homem no mundo, mas com o mundo, de uma forma crítica e autônoma. Então, atualmente, esse homem deve ser capaz de participar desse mundo que, cada vez mais, se compõe de ambientes informatizados. Conseqüentemente, deve-se rever não só os valores e métodos do modelo tradicional de ensino-aprendizagem, como também, avaliar como os softwares educativos são utilizados, atualmente, no ensino. Outro ponto a ser observado diz respeito ao modo como essas ferramentas computacionais podem contribuir de forma eficaz no processo de ensino-aprendizagem e na construção do conhecimento. O que confere a um software o caráter educacional é a sua aplicação no processo ensino-aprendizagem, neste sentido um software pode ser considerado educacional quando adequadamente utilizado em uma relação de ensino-aprendizagem. Contudo, Oliveira e colaboradores (2001) enquadram os softwares educacionais em duas categorias, quais sejam:
Em virtude do aumento significativo do número de estudantes que procuram a educação profissional, há também um crescimento da necessidade do aumento da capacidade dos laboratórios e recursos didáticos, como também o aumento dos recursos físicos para satisfazer o aprendizado de todos os formandos. Devido à incompatibilidade dos recursos físicos existentes em relação aos necessários, são utilizados, nas universidades e centros de formação profissional, ambientes didáticos de simulação de componentes físicos reais. Dessa forma, o aprendizado profissional é baseado, principalmente, na modelagem computacional de sistemas reais, que posteriormente serão vivenciados na vida profissional. Além disso, os softwares educativos são empregados também no desenvolvimento cognitivo dos formandos. Com esses indícios, a educação profissional está, cada vez mais, dependente dos softwares educativos. Jucá (2004) defende que a qualidade de um software educativo está relacionada com a capacidade que o computador, como mediador didático, tem de obter satisfação e êxito dos alunos na aprendizagem de um conteúdo ou habilidade. As características que distinguem um software educativo é o seu desenvolvimento fundamentado em uma teoria de aprendizagem, a capacidade para que o aluno construa o conhecimento sobre um determinado assunto, o poder de interação entre aluno e programa mediado pelo professor e a facilidade de atualização dos conteúdos. Sancho (1998) também conceitua um software educativo como um programa que possui recursos que foram projetados com a intenção e finalidade de serem usados em contextos de ensino-aprendizagem, sendo projetado para tal. Estes programas se aplicam a diferentes finalidades que vão desde a aquisição de conceitos, passando pelo desenvolvimento de habilidades, até a resolução de problemas. Os softwares educativos são classificados por Sancho (1998) em grandes grupos de acordo com as suas características e suas vantagens, são eles:
O conhecimento dos princípios básicos de informática torna-se indispensável à formação da cidadania contemporânea. Por isso, é necessário que o ensino possa fornecer um conjunto de competências específicas que permitam perceber e interagir com a evolução tecnológica presente no cotidiano. Como os softwares geralmente apresentam uma resposta a partir de um determinado dado de entrada, seja ele certo ou errado, Borges (1999) defende que os softwares educativos podem estimular o desenvolvimento do raciocínio lógico e, conseqüentemente, da autonomia do indivíduo, a medida em que podem levantar hipóteses, fazer interferências e tirar conclusões a partir dos resultados apresentados. Por estes motivos, é preciso avaliar os princípios didáticos, as potencialidades de aprendizagem e as limitações tecnológicas, como também, o nível e a capacidade de interação destas ferramentas computacionais para o uso eficiente dos softwares educativos na educação profissional. O termo “aprendizagem” é usado freqüentemente na linguagem diária e, de um modo geral, é tido como sinônimo de "conhecimento". Neste estudo, no entanto, é necessário diferenciar o processo do produto, ou seja, é através do processo de aprendizagem que adquirimos conhecimento, ou seja, o processo de aprendizagem ocorre internamente ao indivíduo. Paralelamente, o resultado deste processo (o conhecimento ou habilidade adquiridos) é externo e, por isso, pode ser mensurado. Contrária a teoria Behavorista comportamental, que associa a resposta da aprendizagem à um estimulo anterior, a teoria cognitiva de Piaget (1970) tem a concepção de aprendizagem como processo de modificação de estado interno, a qual é comprovada pelo fato de que um indivíduo mesmo tendo aprendido algo, não necessariamente o demonstre em seu desempenho, seja por falta de motivação ou por outro motivo. Em linhas gerais, a teoria Piagetiana diz que a inteligência se desenvolve paulatinamente desde o nascimento passando pelos estágios sensório-motor, o pré-operatório, o operatório até o patamar formal, por volta dos 12 anos. Neste último estágio, de natureza metacognitiva, o indivíduo é capaz de levantar hipóteses e imaginar situações, que são características fundamentais na operação de softwares educativos que utilizam simulação de sistemas reais. A inteligência é construída através das interações do sujeito com o meio que o cerca. Este sujeito busca compreender os fenômenos, os objetos, sendo esta uma característica intrínseca de nossa espécie. Porém o objeto oferece resistência, não sendo assimilado passivamente. O esforço do sujeito para entender este novo objeto é chamado de acomodação, ou seja, constitui um esforço interno visando aprender algo. O processo de acomodação modifica as estruturas mentais fazendo com que fiquem mais flexíveis e abertas. Neste processo de flexibilização das estruturas mentais, o novo objeto é classificado e seriado e, assim, inserido na estrutura mental atual do sujeito, ou seja, o novo objeto é assimilado a esta estrutura mental, expandindo-a. Quando a assimilação ocorre, o indivíduo é capaz de organizar melhor a realidade, compreendendo as relações e propriedades do objeto assimilado em relação aos demais objetos, já seus conhecidos. Neste processo de busca, há esforço e prazer, pois a assimilação dá ao aprendiz uma sensação de realização, de bem-estar. O processo é cíclico, pois o entendimento de um objeto leva o sujeito a questionar-se sobre novas hipóteses ou buscas, possíveis agora devido à luz que o recente aprendizado lançou sobre os demais objetos de sua estrutura mental e de sua realidade. Flavell (1975) ressalta que a teoria de Piaget é aplicada à aprendizagem em geral, pois revela muito sobre a natureza do sujeito do conhecimento e sobre o processo pelo qual elementos externos e desconhecidos tornam-se elementos internos e conhecidos. Serve como um indicador das condições mais favoráveis à aprendizagem. Neste estudo interessa-nos saber o que ocorre quando uma ação é internalizada pelo indivíduo. Para que ele entenda a ação, deve partir dele o esforço de internalizar esta ação. Neste esforço, o aluno efetua uma série de operações mentais, a fim de assimilar as propriedades dos elementos envolvidos. Quando um software educativo apresenta uma nova idéia, ou seja, um elemento desconhecido e externo, este deve propiciar ao usuário condições de praticar este novo elemento e compará-lo com situações já vivenciadas para que possa torná-lo um elemento conhecido e interno. Segundo Piaget (1978), para a construção de um novo conhecimento o sujeito precisa vivenciar situações em que possa relacionar, comparar, diferenciar e integrar os conhecimentos. Assim, ele estará construindo conhecimentos de longa duração, pois incorporou-os em situações práticas e experiências vivenciadas. Desta forma, este novo elemento será conectado aos demais elementos da rede mental, tornando-se um novo nó desta rede. O papel das instituições de ensino deveria ser ensinar a pensar, a valorizar os aspectos operativos do pensamento, a fazer com que o indivíduo experimente e a favorecer a manipulação para que possa tirar daí as conclusões abstratas sendo suficiente para a estruturação dos conhecimentos. Seguindo essa teoria, o software educativo deve, também, além de propiciar condições para utilizar as novas tecnologias, levar o aluno a refletir sobre os resultados obtidos, pois é uma ação necessária para a internalização do conhecimento. A utilização dos computadores como recurso didático é um caminho irreversível, tendo em vista a crescente versatilidade dos softwares educativos, como também, a capacidade de modelar e simular sistemas reais. A eficiência desses recursos na educação profissional depende dos critérios didáticos e qualitativos adotados pelos professores como a capacidade de simulação e a capacidade de desenvolver a autonomia dos alunos. A principal função destas ferramentas computacionais didáticas não é de substituir a figura do professor, mas sim, auxiliá-lo na mediação de processo de ensino-aprendizagem, tanto em disciplinas específicas, como também, estimular os alunos a interagir com os recursos provenientes do avanço tecnológico e do mundo globalizado. Referências bibliográficasAlava, S. (2002) Ciberespaço e formações abertas: Rumo a novas práticas educacionais? Porto Alegre: Editora ArtMed. Aranha, G. (2006). Jogos Eletrônicos como um conceito chave para o desenvolvimento de aplicações imersivas e interativas para o aprendizado. Cien. & Cogn ., 07: 105-110. Disponível no World Wide Web: www.cienciasecognicao.org. Borges, H. (1999). Uma classificação sobre a utilização do computador pela escola. Fortaleza, Revista Educação em Debate , 1 (27): 135-138. Carvalho, P.C.M. e Jucá S.C.S. (2003). Programa didático de dimensionamento de sistemas fotovoltaicos autônomos. Congresso Brasileiro de Ensino de Engenharia - COBENGE , Rio de Janeiro, Art. EDS092. Flavell, J. H. (1975) A psicologia do desenvolvimento de Jean Piaget. São Paulo: Editora Pioneira. Freire, P. (1975) Extensão ou Comunicação? Rio de Janeiro: 2ª ed. Editora Paz e Terra. Litwin, E. (1997). Tecnologia Educacional: Política, histórias e propostas . Porto Alegre: Artes Médicas, 191pp. Jucá. S. C. S. (2004) Comparação de Métodos de Dimensionamento de Sistemas Fotovoltaicos Autônomos: Aplicação a uma unidade de Eletrodiálise . Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em engenharia Elétrica. Universidade Federal do Ceará. Fortaleza,CE. Oliveira, C.C., Menezes, E. I., Moreira, M. (2001) Ambientes Informativos de Aprendizagem: produção e avaliação de software educativo . Campinas: Editora Papirus. Piaget, J. (1970). O nascimento da inteligência na criança . Rio de Janeiro: Editora Zahar. Piaget, J. (1978). Problemas de Psicologia Genética . São Paulo: Editora Abril Cultural. Sancho, J.M. (1998). Para uma Tecnologia educacional . Porto Alegre: Editora ArtMed. Nota sobre o autor" – S. Jucá é graduado em Tecnologia Mecatrônica (CEFET-CE), Licenciado em Física, Especialista em Automação Industrial (UECE) e Mestre em Engenharia Elétrica (UFC). Atua como Professor do CEFET-CE na Área da Indústria, Endereço para correspondência: Rua Carvalho Mota, 150. CEP: 60450-630. Bairro: Parque Araxá. Fortaleza, CE, Brasil. E-mail para correspondência: sandrojuca@cefetce.br .
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