As profundezas do vício: “ Quando eu quiser, eu paro!”The deepening of the addition: “When I want, I stop!” Ariel Lorber Rolnik (a) *e Alfred Sholl-Franco (b) (a) Faculdade de Medicina, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; (b) Programa de Neurobiologia, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), Centro de Ciências da Saúde, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
“ Quando eu quiser, eu paro!” Essa frase é, freqüentemente, o prenúncio de diferentes histórias trágicas. Sem preconceitos, moralismos ou terrorismos: é uma questão de saúde. O vício, ou adicção como também é conhecido, é um distúrbio crônico que pode ter curso progressivo e complicações graves, às vezes letais. O que caracteriza uma pessoa como dependente é a perda do controle sobre o uso de drogas ou sobre determinados comportamentos (Vanderschuren e Everitt, 2005). Este é um fato que muita gente tem dificuldade de aceitar: um ser humano pode perder o controle sobre seu próprio comportamento, como se vê quando um viciado não consegue limitar a auto-administração de uma droga, ou quando um indivíduo continua o seu uso apesar da presença concomitante de estímulos dolorosos, ou mesmo do ato em si poder resultar em conseqüências sabidamente nocivas. À luz da ciência atual, a dependência por uma substância é constituída por dois componentes distintos: a dependência psicológica e a dependência física (ou química). A primeira se associa ao desejo intenso de consumir a substância (quem nunca teve uma vontade irresistível de comer doce?), enquanto a segunda é relacionada a um conjunto de sintomas que segue a privação do uso da substância, a síndrome de abstinência, que leva o indivíduo a recorrer novamente à mesma para suprir a sua falta, e pode ser tão intensa a ponto de causar a morte (para revisão, Twerski, 2001: 23). Esses efeitos são facilmente reprodutíveis em animais de laboratório que são viciados em drogas e, posteriormente, afastados delas. Fatores genéticos, assim como problemas psicológicos, emocionais e sociais, podem facilitar a instalação da adicção (Koob, 1996a) . Realmente é intrigante a busca por respostas que elucidem quais são os processos celulares e moleculares responsáveis pelos fenômenos ligados ao uso das drogas, como tolerância , sensibilização , dependência , compulsão , síndrome de abstinência e o fenômeno de recaída . A investigação abrange desde simples experimentos de laboratório e relatos de experiências pessoais até sofisticados métodos de imagem que mapeiam a atividade cerebral no estudo desses fenômenos, como vemos no trabalho intitulado Behavioral and neural mechanisnms of compusive drug seeking (Vanderschuren e Everitt, 2005) e que compreende uma bela revisão sobre os conhecimentos de que dispomos hoje sobre o assunto. As drogas ativam, no cérebro, o circuito de recompensa, o que gera a sensação de prazer. Parte desse circuito é o sistema mesocorticolímbico, que tem como neurotransmissor principal a molécula de dopamina. Quando ativado, um de seus componentes, a área tegmental ventral, libera dopamina através de suas projeções (axônios) ao núcleo acumbente (que é tido atualmente como o centro do prazer), assim como em outras estruturas do cérebro: a amígdala, o sistema límbico (o sistema das emoções) e o córtex frontal (Planeta e Cruz, 2005) . Mantendo sempre em mente a extrema complexidade da circuitaria de conexões presentes no sistema nervoso, esse não é um circuito isolado, mas sim um dos que se conecta direta e indiretamente com inúmeras regiões, podendo influenciá-las, assim como ser modulado por elas. Exemplo prático disso é o fenômeno de recaída ao vício: um cheiro, uma música ou a visão de qualquer coisa que “lembre” o prazer gerado pelo uso da droga numa ocasião prévia pode ativar parte dessa circuitaria, levando o indivíduo a usar novamente a droga (recaída) ou até mesmo deflagrando sintomas de abstinência (neste caso, parte do sistema de recompensa é estimulado pelas respectivas áreas cerebrais: do olfato, da audição ou da visão) (Koob, 1996b). Existe uma diferença entre beber socialmente e o abuso do indivíduo alcoólatra. De um ponto de vista psiquiátrico, a dependência de substâncias tem aspectos tanto de transtornos do controle do impulso quanto de distúrbios compulsivos. O primeiro grupo tem um caráter mais psicológico e denota um aumento no nível de tensão ou alerta antes do ato impulsivo; prazer, gratificação ou alívio durante o mesmo; remorso, auto-reprovação ou sentimento de culpa após a conclusão. Já os distúrbios compulsivos compreendem disfunções que cursam com alterações em órgãos de vários sistemas do corpo humano. Este componente caracteriza-se por ansiedade e estresse antes da realização do ato compulsivo repetitivo e, simplesmente, alívio desses sintomas após a consumação desse ato. A diferença é que a ansiedade e o estresse, em oposição ao alerta e à tensão, marcadamente atingem vários órgãos (do que são exemplos a taquicardia, a palidez, sudorese e tremores, entre outros sinais e sintomas da abstinência). Além disso, um impulso conduz o indivíduo de um estado neutro para outro de sensações positivas (reforço positivo), como ocorre nas primeiras vezes em que ele faz uso da droga. A compulsão, ao contrário, leva o seu portador de uma situação de sensações negativas (os sintomas) a uma neutra, de alívio dos sintomas (reforço negativo). É o que ocorre nas fases mais avançadas do abuso, quando o vício já está instalado. Assim, quando o indivíduo passa da fase de impulso para a compulsão, há uma troca na qualidade e na intensidade da força que motiva o comportamento. O limite entre essas duas fases pode ser bastante tênue (uma mudança gradual), mas o que não deixa dúvida é que na fase compulsiva o doente já não sente prazer em usar a droga (como esperava no início do abuso), só alivia seus sofrimentos (necessitando de doses cada vez mais altas, devido ao fenômeno da tolerância) (Koob, 2005). O interessante é que não só as drogas de abuso (tais como cocaína, nicotina e álcool) elevam os níveis de dopamina no Núcleo Accumbens, mas também certos medicamentos e comportamentos como sexo , jogos , esportes ou o hábito de comprar . Enfim, qualquer situação que gere prazer (hedonismo). Essas situações e substâncias compartilham vias neuroquímicas comuns, o que parece explicar o fato de todas elas poderem ser fontes vício. Numa perspectiva mais teórica, a adicção pode ser compreendida como um estado de desregulação do sistema de recompensa em que o ponto de ajuste está patologicamente deslocad o (Koob e Le Moal, 2001). A e sse estado damos o nome de alostase, em oposição ao de homeostase, que representa o equilíbrio natural em que vive um organismo saudável. Num sistema homeostático, uma variação em um dos parâmeteros fisiológicos tende a ser compensada por modificações internas que reaproximem tal variável de seu valor normal. Para isso, cada função do ser vivo tem um ponto de ajuste ( setpoint ) que serve como referência para o “correto” funcionamento do todo. Pense, por exemplo, na temperatura do corpo humano: quando ela sobe devido ao esforço físico, o indivíduo sua, perdendo energia térmica pelo suor, o que permite que a temperatura retorne à faixa fisiológica de 35,5 a 37,5°C. Isso porque uma temperatura de 45°C não seria compatível com a vida. E quando a temperatura cai para 35,5°C por causa de um ambiente muito frio, nós trememos, pois as contrações musculares que geram o tremor produzem calor (a hipotermia severa também não é tolerada por muito tempo). Num caso patológico, como o do comedor compulsivo, por exemplo, a regulação da ingestão de alimentos estimulada pela fome é perdida, o que tem muitas conseqüências no corpo. A sensação de prazer desencadeada pelas situações citadas parece ser a peça-chave no desenvolvimento do vício, através de uma desregulação alostática desse sistema. Estamos no começo da exploração de um vasto e misterioso oceano. O conhecimento das profundezas das vias e mecanismos subjacentes aos fenômenos da dependência nos traz a perspectiva de novos alvos em que possam agir diferentes agentes terapêuticos, sejam eles psíquicos, medicamentosos ou comportamentais. Koob (2005) apresenta uma ampla revisão das bases neurofisiológicas da dependência, correlacionando-as com as atuais possibilidades terapêuticas. É uma luz para tentar resolver um problema que, além de atingir o ser humano como indivíduo, tem imensas repercussões sociais. Referências bibliográficas Koob, G.F. (2005). The neurocircuitry of addiction: Implications for treatment. Clin. Neurosci. Res. , 5, 89-101. Koob, G.F. e Le Moal, M. (2001). Drug addiction, dysregulation of reward, and allostasis. Neuropsychopharmacology , 24, 97-129. Koob, G.F. (1996a). Hedonic valence, dopamine and motivation. Mol. Psychiatry , 1, 186-189. Koob, G.F. (1996b). Drug addiction: the yin and yang of hedonic homeostasis. Neuron, 16, 893-896. Planeta, C.F. e Cruz, F.C. (2005). Bases neurofisiológicas da dependência do tabaco. Rev. Psiquiat. Clin. , 32, 251-258. Twerski, A.J. (2001). Vencedores viciados (trad. Horowitz, E.E.). São Paulo: Editora Maayanot. Vanderschuren, L.J.M.J. e Everitt, B.J. (2005). Behavioral and neural mechanisms of compulsive drug seeking. Eur. J. Pharmacol. , 526, 77–88. Nota sobre os autores: * – A. L. Rolnik é Monitor de Neurofisiologia, Programa de Neurobiologia, IBCCF (UFRJ) e Graduando do Curso de Medicina (UFRJ). E-mail para correspondência: rolnikariel@yahoo.com.br . A Sholl-Franco é Biólogo (FAMATh), Especialista em Neurobiologia (UFF), Mestre e Doutor em Ciências (UFRJ). Atua como Professor Adjunto no IBCCF (UFRJ) e orientou este trabalho. Endereço para contato: Sala G2-032, Bloco G – CCS, Programa de Neurobiologia, IBCCF, UFRJ. Av. Brigadeiro Trompowiski S/N – Cidade Universitária, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro, RJ 21.941-590, Brasil. Telefone: +55 (21) 2562-6562. E-mail para correspondência : asholl@biof.ufrj.br .
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