“Cheirar cola”: aspectos sociais e fisiológicos do uso crônico de solventes“Glue sniffing”: social and physiological aspects of chronic solvents use Mariana Martins Ferraz (a)" e Alfred Sholl-Franco (b) (a) Faculdade de Medicina, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; (b) Programa de Neurobiologia, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), Centro de Ciências da Saúde, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
O uso de drogas, principalmente entre adolescentes, é um problema que preocupa diferentes setores da sociedade. Diversos esforços têm sido realizados no sentido de se prevenir o envolvimento dos jovens com substâncias tóxicas, alertando-os para as conseqüências que essas podem provocar em sua saúde. Assim, é de fundamental importância divulgar para a população o que tem sido discutido no meio cientifico a esse respeito, de modo que tal conhecimento possa ser disseminado e aplicado em debates, aulas e palestras. Dentre as principais drogas utilizadas, os solventes orgânicos chamam a atenção pela precocidade da procura pela droga por seus usuários. Tipicamente, o uso dessas substâncias se inicia no final da infância e início da adolescência, tendo sido o relato de adicção mais precoce aos 4 anos de idade (Berkowitz e Booth, 1978). Elas podem ser encontradas em uma extensa variedade de produtos químicos de uso cotidiano, tais como colas, tintas, thinners, aerosols, removedores e cosméticos (Meadows e Verghese, 1996; Gericke et al., 2001). Seu vasto uso pode ser explicado pela sensação de euforia que provocam, por seu fácil acesso e baixo custo. Quando usadas em altas doses e/ou de forma crônica, essas substâncias levam à síndrome de adicção (Lolin, 1989; Meredith et al., 1989). Como os efeitos após a inalação são rápidos (desaparecem após 15 a 40 minutos), o usuário acaba repetindo a dose diversas vezes para prolongar a sensação de euforia, o que favorece a ocorrência do vício. Os solventes orgânicos são extremamente neurotóxicos, comprometendo o funcionamento dos neurônios por dissolverem suas estruturas lipídicas. Assim, eles danificam a membrana celular, uma bicamada de fosfolipídios delimitadora da célula, que filtra seletivamente as substâncias que tentam entrar ou sair da célula. A integridade dessa membrana é essencial para a manutenção de uma concentração ideal de solutos no meio intracelular. Como a capacidade de gerar impulsos nervosos depende da concentração de íons no neurônio, quando se perde a capacidade de se controlar a entrada e saída desses íons, a função neuronal está comprometida. Outra estrutura lipídica afetada pelos solventes orgânicos é a bainha de mielina, uma capa envoltória espiral com propriedades isolantes, presente em alguns neurônios. Essa estrutura possibilita o alcance de maiores velocidades de condução dos impulsos nervosos através dos neurônios. Substâncias que destroem a bainha de mielina causam lentificação na propagação dos impulsos. A principal substância inalada pelos usuários de solventes orgânicos é o tolueno, que pode causar morte súbita devido à inibição do nervo vago (Hayden et al., 1977; Streicher et al., 1981; Devathasan et al., 1984; Meadows e Verghese, 1996). Esse nervo contém fibras aferentes que recebem informações sensitivas dos aparelhos respiratório e digestivo, do coração e do ouvido externo; além de informações químicas, como a gustação e a concentração de certas substâncias no sangue. Além disso, há fibras eferentes que enviam informações motoras ao coração, aos músculos respiratórios e do trato digestivo. Assim, o comprometimento desse nervo pode provocar depressão respiratória com anóxia, arritmias cardíacas e distúrbios hematológicos, que podem culminar na morte. Além disso, o uso crônico (severo e de longa data) de tolueno pode comprometer funções cerebelares, causando tremores durante a execução de movimentos e ataxia, ou seja, perda da capacidade de coordenar os movimentos das diferentes partes do corpo. (Ferreiro e Isern Longares, 1990; Pryor, 1991; Pryor et al., 1991; Pryor e Rebert, 1992; Dittmer et al., 1993; Meadows e Verghese, 1996; Boor e Hurtig, 1997; Eller et al., 1999; Lataye et al., 2003; Lee et al.,2003). O cerebelo é uma região do encéfalo responsável pelo controle e ajuste fino dos movimentos, tanto os voluntários quanto os que regulam o equilíbrio e a postura. Suas células recebem informações do planejamento motor provenientes do córtex e informações sensoriais que descrevem de que forma o movimento está sendo executado. Comparando esses dados, o cerebelo verifica se o que foi comandado está sendo devidamente realizado. Qualquer pequeno desvio pode ser corrigido pelos neurônios cerebelares, que enviam informações motoras aos músculos. Trata-se de uma regulação fina e precisa durante a execução dos movimentos, sem a qual esses se tornam tremidos e descoordenados. Em alguns pacientes foram ainda observadas disfunções cognitivas, defeitos no trato córtico-espinhal – o feixe de fibras nervosas que enviam informações do córtex motor para os músculos -, neuropatia óptica progressiva, perda auditiva neurossensorial e neuropatias periféricas. (Ferreiro e Isern Longares, 1990; Pryor, 1991; Pryor et al., 1991; Pryor e Rebert, 1992; Dittmer et al.,1993; Meadows e Verghese, 1996; Boor e Hurtig, 1997; Eller et al., 1999; Lataye et al., 2003; Lee et al.,2003). Os principais déficits cognitivos correlacionam-se com funções de percepção, concentração, aprendizagem, memória de curto prazo e noção de espaço visual (Gericke et al., 2001). Foi sugerido que a disfunção cognitiva é o achado mais precoce e freqüente da toxicidade crônica do tolueno. Essa pode ser percebida clinicamente através de sinais de apatia, dificuldade de concentração, distúrbios vísuo-espaciais e de memória compatíveis com a demência subcortical. (Hormes et al.,1986). A demência subcortical caracteriza-se pela perda gradual e irreversível da capacidade intelectual, associada a distúrbios dos movimentos, como tremores e discinesias. Outra importante conseqüência da inalação de substâncias voláteis são as neuropatias periféricas (Rosen, 1984). O sistema nervoso é divido em um componente central, formado pelas estruturas neurais intracranianas e medulares, que são capazes de processar a informação e elaborar respostas; e um componente periférico, formado por gânglios e nervos, que são responsáveis pela condução dessas informações, de modo a conectar elementos sensoriais, sistema nervoso central e elementos efetores das respostas. Assim, a neuropatia periférica é um distúrbio de condução e não do processamento das informações. Acredita-se que o efeito neurotóxico periférico provocado pelos solventes orgânicos se dê pela ação do n-hexano, um outro componente dessas substâncias presente em concentração bem menor que o tolueno (Passero et al., 1983, Jalil e Vergara, 1990). Dentre as neuropatias periféricas, destacam-se os distúrbios motores (Goto et al., 1974; Franchini et al., 1978; Streicher et al., 1981); auditivos (Metrick e Brenner, 1982; Ehyai e Freemon, 1983; Lazar et al., 1983; Hormes et al., 1986; Pryor e Rebert, 1992); e, quando o uso de tolueno é prolongado ou quando seu efeito é aumentado pelo uso concomitante de álcool, os distúrbios somestésicos (Streicher et al., 1981; King, 1982; Lazar et al., 1983). A somestesia refere-se à percepção do próprio corpo através dos estímulos táteis, dos movimentos corporais, da posição dos membros no espaço, de temperatura e de dor. O acometimento periférico visual é muito raro e sutil. Não se sabe se sua ocorrência está associada à quantidade de substância inalada, à predisposição genética, à dieta e/ou uso de outras drogas. Tendo-se apresentado as principais conseqüências do uso crônico de solventes orgânicos, espera-se que essas informações possam ser discutidas com os jovens usuários em processo de recuperação, bem como aqueles que ainda não se envolveram, alertando-os para o perigo de uma experiência futura. Evidentemente, essa conscientização da preservação do estado de saúde deve estar aliada a trabalhos psicológicos e sociais que visem combater as causas da procura pela droga. Referências bibliográficas Berkowitz, F.E. e Booth, W.R. (1978). Glue-sniffing in a young child. South African Med. J., 54, 622. Boor, J.W. e Hurtig, H.I. (1997). Persistent cerebellar ataxia after exposure to toluene. Annals Neurol., 2, 440–442. Devathasan, G.; Low, D.; Teoh, P.C.; Wan, S.H. e Wong, P.K. (1984). Complications of chronic glue (toluene) abuse in adolescents. Australian and New Zealand J. Med., 14, 39–43. Dittmer, D. K., Jhamandas, J. H. e Johnson, E. S. (1993). Glue-sniffing neuropathies. Canadian Fam. 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São Paulo: Editora Atheneu. Nota sobre os autores " – M.M. Ferraz é Monitora de Neurofisiologia, Programa de Neurobiologia, IBCCF (UFRJ) e Graduanda do Curso de Medicina (UFRJ). E-mail para correspondência: mari33feraz@yahoo.com.br . A Sholl-Franco é Biólogo (FAMATh), Especialista em Neurobiologia (UFF), Mestre e Doutor em Ciências (UFRJ). Atua como Professor Adjunto no IBCCF (UFRJ) e orientou este trabalho. Endereço para contato: Sala G2-032, Bloco G – CCS, Programa de Neurobiologia, IBCCF, UFRJ. Av. Brigadeiro Trompowiski S/N – Cidade Universitária, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro, RJ 21.941-590, Brasil. Telefone: +55 (21) 2562-6562. E-mail para correspondência : asholl@biof.ufrj.br .
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