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© Ciências & Cognição 2007; Ano 04, Vol
12: <http://www.cienciasecognicao.org>
ISSN 1806-5821 Submetido
em 10/02/2006 | Revisto em 27/09/2007 | Aceito em 29/11/07 | Publicado online em 03/12/07 Classificação:
revisão - Versão em pdf
Como citar
este artigo: Figueiredo, V.L.M. (2007). Estilo de vida como indicador de saúde na velhice. Ciências & Cognição; Ano 04, Vol 12. Disponível em www.cienciasecognicao.org |
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Estilo de vida como indicador de saúde
na velhice
Life
style as health indicator on ageing
Vera
Lygia Menezes Figueiredo"
Programa Interdisciplinar de Geriatria e
Gerontologia, Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP), Universidade Federal
Fluminense (UFF), Niterói, Rio de Janeiro, Brasil
Resumo
Uma revisão da literatura gerontológica objetivou explorar o tema do envelhecimento saudável, dando-se destaque aos fatores contribuintes para a manutenção da qualidade de vida. Dentre os fatores pesquisados, o estilo de vida é considerado como um importante promotor de estímulos sócio-emocionais que otimizam o funcionamento cognitivo. A conclusão sugere que estilo de vida possa ser utilizado com um indicador de saúde, recebendo assim cuidadosa atenção quando se objetiva promover ou prevenir a saúde na senescência. © Ciências & Cognição 2007; Vol. 12.
Palavras-chave: velhice; estilo de vida; qualidade de vida; saúde
coletiva; gerontologia.
Abstract
A gerontological literature review aimed to explore the healthy ageing
emphasizing the contributive factors for the maintenance of a life quality.
Among the factors researched, life style is considered as an important promoter
of social-emotional stimuli that improve the cognitive functioning The conclusion
suggests that life style may be used as a health indicator and it should earn
careful attention when the objective is to promote or prevent health in
senescence. © Ciências & Cognição 2007; Vol. 12.
Keywords: ageing; life style; life quality; collective health;
gerontology.
Introdução
"Quantos
velhos obstinados morrem intestados!
Para eles,
trata-se menos de conservar até o fim seu tesouro
ou seu império já meio desligados dos seus
dedos entorpecidos,
do que de não
se instalar demasiado cedo no estado póstumo de um homem
que já não tem decisões a tomar, surpresas a
causar,
ameaças ou
promessas a fazer aos vivos."
(Marguerite Yourcenar, 1980: 96-97)
Nas sociedades modernas industrializadas, um fenômeno
mundial recorrente é a saída do indivíduo do cenário social via a aposentadoria
e, comumente, coincidente com a entrada na velhice. Apesar de a realidade
demográfica apontar para um crescimento progressivo e expressivo da população
idosa, que já vêm alcançando com facilidade faixas etárias longevas, o
reengajamento funcional ou mesmo ocupacional (que significaria o acesso aos
núcleos socioculturais) não é estimulado ou mesmo valorizado por conta de
imagens ainda preconceituosas e/ou estereotipadas do indivíduo envelhecido.
Assim, inexpressivos e insuficientes estímulos socioculturais aliam-se à
sensação de inabilidade pessoal para conviver em um mundo estranho aos seus
hábitos e padrões adquiridos em gerações passadas, seja por uma tendência
pessoal à desvalorização de suas capacidades e habilidades, ou bem devido a uma
dificuldade para abrir-se ao novo e permitir novas aprendizagens. O indivíduo
idoso pode, paulatinamente, desobrigar-se de resgatar o seu sentido de
pertencimento social, deixando de ser alguém 'desejante'.
Além do desestímulo social, e por uma série de fatores
ligados às histórias pessoais e às experiências de vida, muitos idosos permitem
que o seu prazer de viver envelheça, impondo-se um isolamento social ou
permitindo que outros o façam. Outros há que vivem bem, porém com uma vida
bastante rotinizada e pouco estimulante em termos cognitivos. E ainda há outros
idosos que, por desajustamentos psicológicos diversos, vivem sob uma qualidade
de vida inferior ao esperado.
Em comum para esses estilos vivenciais humanos
descritos, pode-se então destacar: uso deficitário das funções cognitivas,
retração da expressividade emocional, e redução das trocas relacionais e com o
meio. Este empobrecimento da qualidade de vida na velhice não encontra respaldo
científico: principalmente no primeiro terço da velhice, a grande maioria dos
idosos é saudável, tanto do ponto de vista orgânico como cognitivo, ou tem as
suas cronicidades ainda sob controle, garantindo assim a possibilidade de
manutenção da autonomia e da independência.
Envelhecimento populacional e o conceito de saúde
O interesse pelo estudo dos fenômenos do
envelhecimento é gerado pelas projeções de crescimento da população idosa nos
Estados Unidos e em vários países da Europa, na virada do século XX e em plena
era industrial. Tanto nos países desenvolvidos como naqueles em
desenvolvimento, guardadas as devidas proporções diferenciadoras, três índices
epidemiológicos vêm mantendo-se em declínio: a mortalidade infantil, a
mortalidade materna, e a mortalidade por doenças crônicas. O resultado desta
combinação vem significando um crescente número absoluto de idosos que,
paulatinamente, irão somando ao contingente populacional já existente. Há um
consenso no meio científico de a expectativa
de vida ser um dos indicadores mais importantes de saúde.
No entanto, somente por volta da década
de trinta é que a Geriatria surge nos meios científicos como uma disciplina
médica, dedicando-se ao estudo das patologias compreendidas como senis e dos
seus aspectos curativos (Debert,1999). Da mesma forma acontece com a
Gerontologia, quando a partir da década de cinqüenta os seus estudos são
sistematizados para a área do envelhecimento normal, da prevenção e da
qualidade de vida na idade tardia, como apropriadamente justifica Néri (1995: 27),
"{...} de explicar os determinantes e as características das mudanças da
velhice, que se tornam cada vez mais visíveis e, quando patológicas, cada vez
mais onerosas para a sociedade”. As
interfaces da Gerontologia com diversas disciplinas, alcançando campos até
mesmo transdisciplinares, abrem dimensões de estudos e pesquisas
enriquecedores.
A velhice, hoje, é uma realidade que tem
longevidade. O crescimento da população de idosos, em números absolutos e
relativos, já é um fenômeno mundial. Em 1950 eram cerca de 204 milhões de
idosos no mundo e, já em 1998, quase cinco décadas depois, este contingente
alcançava 579 milhões de pessoas - um crescimento de quase oito milhões de
idosos por ano. Segundo Paschoal (apud Papaleo Netto, 1996), a expectativa
média de vida da população em geral (limite biológico) encontra-se atualmente
projetada em torno de oitenta e cinco anos; para o Brasil de 2005 este índice já
era de setenta e dois anos (Néri, 1995:36), o que contrasta enormemente com
aquela expectativa de vida do século passado de até uns sessenta e oito anos de
idade.
Envelhecer com saúde vem sendo, portanto, o atual
desafio para este século XXI, como bem expressa a Organização Mundial de Saúde
(OMS)1:
"It is time
for a new paradigm, one that views older people as active participants in an
age-integrated society and as active contributors as well as beneficiaries of
development.” (WHO, 2002:43)2
A ciência já acumula pesquisas e estudos que oferecem
algumas respostas sobre o que é ser idoso, o que é a velhice, e o que produz o
envelhecimento humano. As diferenças individuais, entretanto, por estarem
delimitadas por eventos de origem psicológica, sócio-histórica e
genético-biológica, trazem dificuldade para conceituar de um modo homogêneo a tamanha
heterogeneidade.
O conceito de saúde, redefinido pela Organização das
Nações Unidas (ONU) em 1947 como um estado de completo bem-estar físico,
psíquico e social, é conceituado em 1994 pela Organização Mundial de Saúde
(OMS) como a busca de uma qualidade de vida:
"It is an
individual perception of his or her position in life in the context of the
culture and value system where they live, and in relation to their goals,
expectations, standards and concerns. It is a broad raging concept,
incorporating in a complex way a person's physical health, psychological state,
level of independence, social relationships, personal beliefs and relationship
to salient features in the environment." (WHO, 2002:13)3
Este ampliado conceito de saúde,
designado como 'Envelhecimento Ativo' (Active
Ageing), define o processo de otimizar oportunidades para a saúde, sendo o
bem-estar biopsicossocial uma de suas vertentes principais, e para uma
participação ativa e em segurança de modo a aumentar a qualidade de vida das
pessoas que envelhecem.
Importante destacar que o planejamento estratégico
desenvolvido no documento da OMS prioriza os direitos e já não tanto as
necessidades do indivíduo idoso. Em outras palavras, o objetivo é a não
paternalização do indivíduo idoso, devendo ser estimulado a uma participação conjunta
tanto no plano de políticas públicas quanto na vida social e comunitária. Os
seus direitos passam a ser destaque, principalmente nos aspectos da igualdade
de oportunidade e do tratamento de saúde à medida que envelhece. No Brasil, a
Política Nacional do Idoso, implementada em janeiro de 1994, mostra preocupação
na formulação de uma política voltada para a velhice e também para os que ainda
irão envelhecer; através do seu 'Plano de Ação Governamental' (MPAS, 1996), a
questão da prevenção é um dos destaques, justificado por tratar-se de ações com
menores custos e que produzem resultados sociais melhores.
Freitas e colaboradores (2001), a partir de uma
consistente revisão da literatura científica sobre pesquisas em Gerontologia e
Geriatria, produzidas nos últimos vinte anos, apontam um equilíbrio nos estudos
sobre a velhice e o envelhecimento: 53,8% em Geriatria e 45,8% em Gerontologia.
“Tal fato reforça o sentido de que, na velhice, o declínio das habilidades
físicas e mentais não resulta somente das conseqüências do avanço da idade, mas
também dos fatores socioculturais que contextualizam o idoso”. Outra análise
feita pelos autores diz respeito à ênfase das pesquisas na promoção de saúde
através da educação para o autocuidado.
Senescência e a capacidade funcional
Senescência é a condição humana de quem está envelhecendo. Há um
consenso na literatura científica para designar, com este termo, o
envelhecimento humano normal, sendo partes deste processo as alterações
funcionais, orgânicas e morfológicas. Já para o envelhecimento patológico, senilidade é o termo mais utilizado,
concorrendo às doenças crônicas e/ou os quadros neurodegenerativos que
incapacitam ou restringem sobremaneira a autonomia do indivíduo idoso.
Um estudo feito em janeiro de 1991, no Canadá (apud Papaleo Netto, 1996: 314), com uma
população de idosos com mais de 75 anos, conclui que "quanto mais velho
maior a incidência de problemas relacionados à saúde e ao desempenho das
atividades da vida diária quando comparado com grupos etários de 60-64 anos e
65-74 anos". Esta pesquisa
confirma resultados semelhantes de estudos já realizados sobre a prevalência da
demência em idosos velhos; no Brasil, entre outras pesquisas, pode-se citar um
estudo epidemiológico de 1998, realizada no interior de São Paulo e conhecido
como ‘Estudo de Catanduva’ (Herrera Jr et
al., 1998).
Segundo a Organização Mundial de Saúde (WHO, 2002), as
doenças crônicas são causas significativas e custosas de incapacidade e de
reduzida qualidade de vida; isto tanto para os países desenvolvidos como para
os países em desenvolvimento. Porém, "incapacidades associadas com o
envelhecimento e o início da doença crônica podem ser prevenidos ou
retardados" (WHO, 2002: 35). Enfatiza
o órgão governamental que o alerta para o envelhecimento patológico tem a ver
com o fato de que o declínio na capacidade funcional pode ser prematuramente
estimulado ou acelerado, bem como pode ser reversível em qualquer idade através
de medidas individuais e das políticas públicas.
Dentre os fatores precipitantes de incapacidade
funcional destaca-se a área cognitiva. Sua importância vem merecendo esforços
por parte dos pesquisadores, em nível mundial, para estudar o perfil cognitivo
do envelhecimento. Dada a heterogeneidade do envelhecer, os estudos esbarram em
dificuldades para classificar déficits cognitivos, principalmente aqueles
relativos à memória. Têm sido propostos diversos termos, tais como: alteração
de memória associada à idade; transtorno cognitivo leve; déficit cognitivo
leve; e etc., que alguns estudiosos do assunto acreditam poderem ser condições
intermediárias entre o normal e o patológico. Por outro lado, quando se intenta
classificar as alterações cognitivas leves (ACL) como distúrbios ou síndromes
associados ao envelhecimento (Korten et
al., 1997; Petersen et al., 1999, 2001; Elias et al., 2000), por exemplo, os
resultados das pesquisas não apresentam expressão significativa de modo a se
poder inferir que aquelas alterações venham a ser um fator de risco para o
desenvolvimento posterior de um quadro de demência. Isto porque as ACL não
costumam comprometer as atividades sócio-ocupacionais e/ou as atividades
diárias, não mostram significância clínica, não se enquadram nos critérios
diagnósticos para síndromes demenciais ou transtornos psiquiátricos graves, e
mais, somente a memória primária (curto prazo) parece ser a função cognitiva
atingida; em termos de tratamento clínico, ainda pouco se pode oferecer para
modificar tal condição alterada. Destarte, não se pode afirmar que o declínio
das funções cognitivas globais seja típico do envelhecimento, já que dados de
pesquisas efetivadas com idosos normais de idades até avançadas mostram-se
inconclusos (Rubin et al., 1998). A
depressão é apontada em alguns estudos como causadora de problemas de memória
e, em outros, como sendo um dos sintomas primários de quadro demencial do tipo
de Alzheimer. Apesar de ser considerada como o segundo mais comum distúrbio
psiquiátrico na velhice (Wetterling e Junghanns, 2004), ainda mostra-se
clinicamente inconcluso distinguir déficits cognitivos vistos na depressão com
aqueles no demenciamento progressivo (Lamberty e Bieliauskas, 1993; Flicker et al., 1993; Fischer et al., 2002).
Em poucas palavras, se define falhas mnêmicas,
popularmente conhecidas como ‘falhas de memória’, como alterações funcionais
genéricas quando não comprometem a autonomia e a independência de indivíduos
idosos.
A conhecida expressão de alerta dos estudiosos das
Neurociências – ‘tudo que não é usado é perdido’ vem a ser produto de inúmeros
estudos e pesquisas sobre o funcionamento cerebral. Citando alguns: Izquièrdo
(2004: 46) comenta que “a maior parte dos esquecimentos resulta da falta de uso
das sinapses (...) o uso reiterado das sinapses causa o seu crescimento e sua
melhora funcional”; além disso, traça uma conexão direta entre memórias e
emocionalidade ao dizer que “(…) os maiores reguladores da aquisição, da
formação e da evocação das memórias são justamente as emoções e os estados de
ânimo”. Ainda segundo este autor, “a atenção e a concentração são as
capacidades mais exigidas para tal” (2002: 12). Damásio (1996: 117) destaca a
interação do organismo com o ambiente, sendo suas relações “mediadas pelo
movimento do organismo e pelos aparelhos sensoriais”, e onde “a comunicação dos
setores de entrada entre si e dos setores de entrada com os de saída não é
direta, mas antes mediada pela utilização de uma arquitetura complexa de
agregados de neurônios interligados” (Damásio, 1996: 119). Néri (1995) informa que pesquisas conduzidas por Baltes e colaboradores,
no Instituto Max Planck4, apontam para uma possível compensação de
perdas mnêmicas com treino da memória, associando os melhores resultados com
boas condições biológicas. Estudos conduzidos com animais sobre novas
experiências e mudanças nos padrões neuronais corticais mostram que a
experiência muda preferências neuronais, a partir de novas aprendizagens; um
desses estudos é o de Sheinberg e Logothetis (2001).
Apesar dos esforços empreendidos a produção
científica, até o momento, exibe resultados controversos quanto à possibilidade
de falhas mnêmicas poderem servir como marcadores da condição do envelhecimento
humano para uma diferenciação entre uma condição benigna de declínio cognitivo
e uma pré-morbidez demencial. O que se depreende dos vários estudos e pesquisas
efetivados vem reforçar a importância de se pensar o idoso a partir do que ele
preserva em si e do que é possível de ser otimizado. Para se ter uma velhice
saudável a questão central não é impedir o declínio funcional biológico, porém
disponibilizar instrumentos que auxiliem na preservação daquilo que é
fundamental à condução da vida (qualidade de) no idoso: capacidade funcional.
Manter esta capacidade na velhice significa, por conseguinte, otimizar recursos
que retardem a deterioração das habilidades individuais e/ou que expandam
potenciais inéditos, dentro dos parâmetros normais considerados aceitáveis para
esta população específica.
Capacidade
funcional tem como principais
atributos a autonomia e a independência, considerados como os fatores
diferenciadores no resvaladiço terreno entre a senescência e a senilidade.
Consoante a
Organização Mundial de Saúde (WHO, 2002: 13), autonomia: “(…) is the perceived
ability to control, cope with and make personal decisions about how one lives
on a day-by-day basis, according to one's own rules and preferences".
Independência, por sua vez, “(…) is commonly understood as the ability to
perform functions related to daily living – i.e. the capacity of living
independently in the community with no and/or little help from others.”5
Estilo de vida como indicador de saúde
na velhice
A prática profissional junto à população idosa costuma
defrontar-se com queixas de falhas mnêmicas relatadas pelos próprios e/ou pelos
seus familiares, preocupados com o espectro dos quadros demenciais. Descartados
os principais fatores precipitantes (hereditários, alterações ou doenças
orgânicas, induções por substâncias), e quando não se encontra respaldo
objetivo para as ditas queixas, Figueiredo (2003) alerta para serem
investigados os aspectos psicossociais e comunicacionais (relação eu-mundo);
pois, muitas das vezes, a desarmonia nas emoções, a insuficiente estimulação
intelectual e o retraimento na vida de relação podem ser os propulsores de
falhas mnêmicas, por efeito contraposto e de forma cumulativa. Canongia e
colaboradores (2004) alertam para a morte
em vida, caracterizada por um abandono existencial auto-imposto, isto é,
pelo próprio indivíduo idoso, tendo como pano de fundo as situações vividas ao
longo de sua existência, paralisantes do
seu viver pelo alto custo emocional envolvido.
Smits e colaboradores (1999) apontam os fatores
psicológicos e a capacidade cognitiva como fortes preditores do envelhecimento
ativo e da longevidade. Para esses autores, os declínios no funcionamento
cognitivo são disparados pelo desuso, enfermidades, fatores comportamentais,
fatores psicológicos e sociais, mais do que pelo envelhecimento
Pode-se entender, então, porque estilo de vida e
cognição compartilham uma estreita relação: a redução da qualidade de um afeta
diretamente a qualidade do outro.
A qualidade de
vida na senescência vem sendo uma preocupação hodierna da Gerontologia,
enfatizando-se a importância da promoção e prevenção de saúde. Pois, apesar de
o declínio na capacidade funcional poder estar influenciado tanto por fatores
ligados ao estilo de vida do adulto como ao seu ambiente externo, estudos
conduzidos em diversos países, na área da biogerontologia, vêm apontando a
supremacia do estilo de vida entre os fatores de saúde e longevidade, no
processo de envelhecimento. A OMS traça, em suas publicações, uma
estreita relação entre manutenção de comportamentos favoráveis e envelhecimento
saudável (WHO, 2002). Conforme Silva (2001), a autonomia e a saúde mental são
apontadas como contribuintes principais para a satisfação de viver,
possibilitando a vivência de uma velhice bem–sucedida. Guimarães (1999: 100)
afirma que "o maior indicador do bem-estar na maturidade e na velhice é o
conceito que as pessoas têm de si mesmas e não a presença de problemas ou
indicadores clínicos". Néri (1995) discrimina a velhice bem sucedida em
perspectivas socioculturais e individuais; no tocante a esta última, diz que
"[...] depende, pois, do delicado equilíbrio entre as limitações e as
potencialidades do indivíduo, o qual lhe possibilitará lidar, com diferentes
graus de eficácia, com as perdas inevitáveis do envelhecimento” (Néri, 1995: 34). Freire e Rezende (apud Néri, 2001) entendem que velhice
bem sucedida é um conjunto de recursos necessários à pessoa para enfrentar
eventos estressantes, envolvendo habilidades e capacidade para solucionar
problemas, bem como a capacidade social. Resultados de pesquisas originadas do Seattle Longitudinal Study6 (Schaie, 1993) revelam pertinente
relação entre flexibilidade comportamental e adaptação na velhice. Destes
estudos mencionados se depreende que a capacidade de adaptação a mudanças está
diretamente associada a altos graus de abertura à experiência.
Bem-estar
subjetivo, enquanto uma das vertentes
do atual paradigma do ‘Envelhecimento Ativo’ (WHO, 2002: 43), é considerado
pela literatura científica como um dos principais propulsores para a
competência adaptativa7 do indivíduo idoso; isto porque envolve uma
abertura à experiência e uma flexibilidade comportamental.
Importante lembrar que mudanças no estilo de vida
podem e devem ser estimulados junto ao idoso, porém não é algo que se adquire
no meio exterior. Estudos gerontológicos concluem consensualmente para a
importância de o indivíduo idoso ser o promotor de atitudes positivas que o
levarão a enfrentar, com qualidade, esta sua etapa evolutiva (WHO, 2002; Silva,
2001; Baltes, 1994). Assim explica Wood, ao discorrer sobre mudanças
atitudinais (1994: 271): “Os seres humanos, ao mudarem as atitudes internas de
suas mentes, podem mudar os aspectos externos de suas vidas”; este autor
entende que estar-se receptivo para mudanças advém, essencialmente, de um
processo sentido pelo indivíduo, de uma receptividade nem sempre conscientizada
ou pronta - uma prontidão em potencial. E. Rogers (1991: 166), ao conceituar o
objetivo do processo do viver, argumenta:
“A ‘vida plena’
é um processo, não um estado de ser. É uma direção, não um destino. A
direção representada pela ‘vida plena’ é aquela que é escolhida pelo organismo
total, quando existe liberdade psicológica para se mover em qualquer
direção.” (grifos do autor)
Considerações finais
A linha divisória entre senescência e senilidade pode
ser traçada a partir da capacidade funcional e da cognição. Por outro lado, ao
se focalizar promoção e prevenção de saúde, o estilo de vida de um indivíduo
idoso deve ser levado em alta consideração, dentre os outros indicadores de
saúde. A revisão da literatura gerontológica efetivada aponta a importância do
estilo de vida para a qualidade do viver na velhice.
Deve ser salientado que estilo de vida e bem-estar
subjetivo são produtos da conscientização do indivíduo de suas necessidades,
desejos, limitações, potencialidades e, principalmente, do grau de abertura
individual à aceitação e incorporação de novas experiências; enquanto aspectos
passíveis de oscilações temporais necessitam de eventuais adaptações ou
ajustamentos.
A adaptação a este novo ciclo vital, para dar conta de
transformações plurais que estarão acontecendo ao longo do processo de envelhecimento,
traz a necessidade de mudanças na postura frente à vida e o viver.
Utilizando-se as habilidades individuais e os potenciais ainda disponíveis (às
vezes até mesmo alguns inéditos), em forma de aprendizagem, o indivíduo idoso
terá condições de responder aos desafios.
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(1994). Abordagem Centrada na Pessoa.
Vitória, ES: Editora Fundação Ceciliano Abel de Almeida.
World Health Organization - WHO. (2002). Active Ageing: a policy framework. Second
United World Assembly on Ageing.
Yourcenar, M. (1980). Memórias de
Adriano. (Calderaro, Martha, Trad.). 6ªed.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Coleção Grandes Romances (Original publicado em
1951).
Notas
(1) As chamadas de citação para OMS constarão nas Referências
bibliográficas sob a entrada World Health Organization.
(2) Tradução livre: "Já é tempo para um novo paradigma, aquele que
vê as pessoas idosas como participantes ativos em uma sociedade integrada
etariamente, e como contribuintes ativos assim como beneficiários do
desenvolvimento".
(3) Tradução livre: É uma percepção individual de sua (dele ou dela)
posição frente à vida, no contexto cultural e no sistema de valores onde vive,
e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e conceitos. É um amplo
conceito, incorporando de um modo complexo a saúde física de uma pessoa, o
estado psicológico, o nível de independência, as relações sociais, as crenças
pessoais e a relação com os aspectos relevantes no meio ambiente.
(4) Max Planck Institute for
Human Development and Education. Berlim,
Alemanha.
(5) Tradução livre: “Autonomia é a habilidade percebida para controlar,
lidar com e tomar decisões pessoais sobre como se viver no dia-a-dia, de acordo
com suas próprias regras e preferências". Independência, por sua vez,
"é comumente compreendida como a habilidade para desempenhar funções
relacionadas ao viver diário, e.g., a capacidade de viver independentemente na
comunidade com nenhuma ou com pequena ajuda dos outros”
(6) Estudo longitudinal de Seattle.Trata-se de um estudo longitudinal
investigativo de diferenças individuais e padrões diferenciais de mudança para
habilidades psicométricas selecionadas, efetivado ao longo de trinta e cinco
anos, sobre o desenvolvimento intelectual adulto.
(7) Termo utilizado por Freire (Néri e Freire, 2000: 24), que designa
"{...} a capacidade generalizada para responder com flexibilidade aos
desafios resultantes do corpo, da mente, e do ambiente. {...} Como competência
adaptativa, o envelhecimento envolve a preservação e a expansão das reservas
para o desenvolvimento pessoal".
Nota sobre a
autora
" – V.L.M. Figueiredo é Psicóloga Clínica, Especialista em Psicologia
Hospitalar (CPF) e Gerontologia (UFF). Atua como voluntária pelo Programa
Interdisciplinar de Geriatria e Gerontologia (HUAP/UFF) e como Coordenadora do
Plantão Psicológico e de uma Oficina de Estimulação Cognitivo-Expressiva em
Grupo, voltados para idosos de comunidade. E-mail
para correspondência: vely_menezes@yahoo.com.br.
Revista Eletrônica Ciências & Cognição

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