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© Ciências &
Cognição 2007; Ano 04, Vol 12: <http://www.cienciasecognicao.org>
ISSN 1806-5821 Submetido em 05/09/2007 | Aceito em 27/11/2007 | Publicado online em 03/12/07 Classificação: artigo científico - Versão em pdf
Como citar este artigo: Melo-Júnior, M.R. de; Araújo-Filho,
J.L.S.; Patu, V.J.R.M.; Machado, M.C.F. P.; e Pontes-Filho, N.T. (2007). Integrando o ensino da patologia às novas competências educacionais. Ciências & Cognição; Ano 04, Vol
12. Disponível em www.cienciasecognicao.org |
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Integrando o ensino da patologia
às novas competências educacionais
Integrating
the learn of pathology to new education competences
Mário Ribeiro de Melo-Júnior", a, b, Jorge Luiz Silva Araújo-Filhoa, Vasco José Ramos Malta Patua, Marcos Cezar Feitosa de Paula Machadoa e Nicodemos Teles de Pontes-Filhoa
aLaboratório
de Imunopatologia Keizo Asami (LIKA), Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), Recife, Pernambuco, Brasil; bAssociação Caruaruense de
Ensino Superior (ASCES), Caruaru, Pernambuco, Brasil
Resumo
Buscando
integrar o ensino tradicional da patologia geral à construção de novas
competências educacionais e baseando-se nos apontamentos preliminares obtidos
por pesquisa realizada com 350 alunos de diferentes cursos de graduação da área
de saúde da Universidade Federal de Pernambuco, este trabalho propõe uma
adequação das técnicas de ensino, com os objetivos de passar os conteúdos
programados e de preparar todos os graduandos para utilizarem conhecimentos
contextualizados e as competências adquiridas em situações reais da vida
profissional. © Ciências & Cognição 2007; Vol. 12.
Palavras-chave:
novas competências;
patologia geral; ensino superior.
Abstract
With the objective of integrate the
general pathology traditional teaching to the construction of new
educational abilities, and based on the
preliminary notes carried out by 350
different health's sciences undergraduate students of the Federal University of
Pernambuco, this work point out an adequacy of the education techniques, with
the aims of transmit the programmed contents, and of prepare all the graduates
to use contextualized knowledge and the abilities acquired in real situations
of the professional life. © Ciências & Cognição 2007; Vol. 12.
Keywords: new competences; general pathology; higher education.
A patologia e a construção das competências
A Patologia Geral é a
ponte entre disciplinas básicas e profissionalizantes da área de saúde. O
ensino da patologia é um elo fundamental, já que o estudante implementará na
sua prática profissional futura os conhecimentos dos processos patológicos como
profissionais de saúde ou pesquisador engajado em diagnosticar e participar das
condutas assistenciais para promover a saúde (Chandrasoma e Taylor,
2004).
Observamos que nos últimos
anos, o déficit do ensino da patologia geral se acentuou, a partir do momento
em que a disciplina Processos Patológicos Gerais (PPG) foi instituída pelo
Conselho Federal de Educação (LDB, 1996), como obrigatória em todos os cursos
superiores da área de saúde (nutrição, ciências biomédicas, fisioterapia,
terapia ocupacional, farmácia, fonoaudiologia e odontologia) e não só em
medicina e enfermagem. Com isso, ocorreu um aumento brusco no número de alunos,
sem que tivessem sido preparadas adequações didático-pedagógicas para o
atendimento necessário a cada curso, dentro das competências para esses.
Dentre os diversos modelos
de gestão pedagógica para que o ensino da Patologia fique condizente com as
diretrizes de cada curso, podemos destacar o desenvolvimento de novas
competências, tese elaborada pelo sociólogo suíço Philippe Perrenoud, Professor
da Universidade de Genebra e especialista em práticas pedagógicas. Ele defende
que competências em educação são as faculdades de mobilizar um conjunto de recursos
cognitivos – como saberes, habilidades e informações – para solucionar com
pertinência e eficácia uma série de situações, buscando conectar os assuntos
trabalhados em sala de aula com a realidade encontrada no ambiente social dos
alunos (Perrenoud, 1999).
Atualmente, essa
contextualização dos saberes é uma das bases do ensino por competências,
tornando-se palavra de ordem da educação em vários países e também no Brasil.
O processo educacional
equivocado que ocorre atualmente consiste em imprimir novas reações sobre
pessoas totalmente maleáveis e passivas. Contudo, tem-se observado que,
simplesmente dar o conteúdo e esperar que ele seja reproduzido não forma o
indivíduo que o mercado de trabalho e a sociedade atual exigem.
O ensino por competências
baseia-se em princípios complexos que devem ser adequados a realidade de cada
área do conhecimento. No caso da patologia, de acordo com nossa vivência em
sala de aula e laboratório temos observado um aprendizado mecânico e
desmotivador para a maioria dos alunos, justamente devido à ausência de
atualizações e busca de novos recursos pedagógicos que auxiliem o aprendizado
dos processos patológicos de uma forma proveitosa e suficiente.
De acordo com a visão do
ensino pela construção de competências, sugerimos alguns princípios
fundamentais para um ensino da patologia geral que, de acordo com algumas
correntes pedagógicas aprimora e estimula continuamente alunos e professores
(LDB, 1996).
Deve-se desde o princípio,
estabelecer um “Contrato pedagógico” entre o professor e os alunos, buscando
firmar posições que cada uma das partes deverá assumir durante o processo de
aprendizado. Os alunos expressam ao docente o que esperam obter com o estudo e
quais as suas aspirações. Por outro lado, o professor estabelece quais as diretrizes
e parâmetros a serem trabalhados durante o curso.
Estabelecido isso,
inicia-se o processo de construção de competências que irão auxiliar na
apreensão e entendimento dos conteúdos. Aqui sugerimos algumas abordagens que
poderão nortear esse processo.
O professor deverá saber:
·
Gerenciar a classe como uma comunidade educativa. Estabelecer o senso de
coletividade, evitando atividades excludentes e particularizadas;
·
Organizar trabalhos utilizando ao máximo os
recursos disponíveis.
Elaborar aulas diferentes com enfoques diversos, utilizando reportagens,
entrevistas, painéis, cartazes, pesquisas, plenárias dentre outros recursos;
·
Conceber e dar vida a dispositivos pedagógicos
motivadores. Buscar
com o auxílio dos alunos atividades dinâmicas e interessantes que facilitem o
aprendizado, utilizar diferentes técnicas pedagógicas;
·
Identificar e modificar aquilo que dá sentido
aos saberes e às atividades escolares. Estimular discussões pertinentes a patologia e
áreas afins, buscando integrar os alunos ao conteúdo estudado;
·
Criar e gerenciar situações-problema. Motivar o debate sobre
relatos de casos anátomo-clínicos e buscar, através dos conhecimentos dos
conteúdos estudados, as possíveis soluções para os casos;
·
Observar os alunos durante a elaboração dos trabalhos. Integrar os alunos às
atividades coletivas, buscando resolver ou minimizar as deficiências
individuais;
·
Avaliar as competências em construção nos alunos. Elaborar fichas de
auto-avaliação para monitorar os progressos dos alunos e atividade docente durante
o curso.
Os alunos deverão
desenvolver as seguintes competências:
·
Dominar a leitura e a escrita de termos
específicos da área.
Na patologia existe uma grande quantidade de termos que se não forem bem
trabalhados são motivos de empecilho ao aprendizado;
·
Resolver situações-problema. É de suma importância
conectar os processos patológicos aos problemas de saúde e comportamento
encontrados a todo momento em nosso meio social;
·
Analisar, sintetizar e interpretar dados, fatos
e situações.
Desenvolver o senso crítico e o discernimento para que o aluno possa lidar de
forma eficiente com situações que exijam uma rápida solução;
·
Compreender seu entorno social e atuar sobre ele. Estimular a
conscientização de cada um, do papel social e como, através dos conhecimentos
adquiridos, pode-se melhorar a sua comunidade;
·
Localizar, acessar e usar melhor as informações
acumuladas. O
essencial não é decorar todo o livro, mas sim, saber como resgatar estes
conhecimentos quando for preciso;
·
Planejar, trabalhar e decidir em grupo. Desenvolver a capacidade
de atuar em equipe e compartilhar informações traçando planos de ação.
Alguns podem questionar a
desvantagem do tempo, já que no caso do ensino da patologia geral há uma
extensa lista de assuntos diversos que precisam ser trabalhados e sedimentados,
porém na maioria dos casos há pouca carga horária disponível. Como fazer então?
É certo que todo esse
processo demanda um esforço maior, mas o professor deve gerenciar esta questão
estabelecendo o conteúdo programático mínimo e essencial de disciplina de
Patologia, para o curso.
A questão-chave é criar no
processo de ensino da patologia o hábito de estabelecer “conexões
teórico-práticas”, capacitando os alunos a buscar informações, onde quer que
elas estejam, para utilizá-las nas situações-problema que possam vir a
enfrentar.
Um bom exemplo de como
equacionar esta dificuldade é o uso da criatividade, utilizando métodos
motivadores e a discussão de problemas concretos, como o estudo de casos
anátomo-clínicos. Nesta modalidade de aula, os tradicionais conteúdos são
apenas um dos elementos do processo de aprendizagem.
Cria-se uma situação a
partir da geração de conflitos que estimula a classe a resolvê-la. Neste caso,
a solução de um problema concreto fará com que a teoria ganhe uma finalidade
aplicável (Feuwerker, 2002).
Quando uma pessoa se
depara com uma situação desafiadora, mesmo no campo de aquisição de
conhecimentos, sem que seus esquemas mentais disponham de elementos suficientes
para enfrentar o desafio, ocorre um desequilíbrio momentâneo. Então, a pessoa
ativa seus esquemas assimilatórios, retirando do meio as informações
necessárias, e mobiliza seus esquemas de acomodação, reorganizando seus novos
dados e superando a situação de desafio; gera-se, dessa maneira, um novo estado
de equilíbrio (Ceccin e Feuerwerker, 2004).
A interdisciplinaridade na prática de ensino
A interdisciplinaridade é
uma das ferramentas bastante utilizada para construção de competências, pois se
sabe que depois de formado e inserido no mercado de trabalho, o profissional de
saúde não encontrará problemas divididos por disciplina.
Um bom exemplo do seu
emprego é observado quando são abordados os processos que geram a calcificação
patológica. Neste caso, obrigatoriamente, discutem-se questões ligadas à fisiologia
(mecanismo de ação hormonal), bioquímica (metabolismo de melanina), biofísica
(efeitos das radiações), clínica médica (reações sistêmicas associadas) e
cultura (hábitos alimentares).
Em turmas pertencentes a
cursos diferentes, é imprescindível atrair a atenção dos alunos com questões
pertinentes a sua área de conhecimento e atuação. Não é restringir ou
especializar, mas interrelacionar o saber acadêmico com o campo de atuação
profissional. Quando se constroem estratégias de ensino como, por exemplo, os
mecanismos de hipersensibilidade, em turmas do curso de farmácia, não se deve
esquecer de enfatizar as principais substâncias farmacologicamente ativas
liberadas pelas células, enquanto no curso de nutrição se dá mais ênfase aos
aspectos nutricionais promotores dos processos alérgicos e esta etapa de
construção do conhecimento integrado, atualmente, tem se denominado de contextualização de conteúdos.
Fica claro que não existem
modelos definitivos para ensinar por competências. São as necessidades de cada
grupo que devem nortear o processo de ensino-aprendizagem. Não se pode ter o
mesmo ritmo, dinâmica e postura didática em turmas diferentes e principalmente
em cursos diferentes. O professor deve avaliar os interesses dos alunos
adequando os conteúdos a serem trabalhados, personalizando-os a cada realidade.
Todo professor sabe muito
bem como reagem os alunos à situação global da classe; eles são influenciados
não apenas pelo desafio da questão formulada ou do conhecimento novo a ser
fixado, mas pelo tom da voz do professor, por sua expressão facial e pela
atitude dos outros alunos, enfim o aprendizado está condicionado a uma série de
questões sociológicas e comportamentais.
Avaliando as competências
A avaliação é
tradicionalmente associada, na escola, à criação de hierarquias de excelência. Os alunos são comparados e depois
classificados em virtude de uma norma de excelência, definida no conceito de
legitimidade absoluta encarnada pelo professor e pelos melhores alunos.
No decorrer do ano letivo, os trabalhos, as provas de rotina, as avaliações orais, a notação de trabalhos pessoais criam “pequenas” hierarquias de excelência, sendo que nenhuma delas é decisiva, mas o seu somatório prefigura a classificação do aluno dentro da hierarquia final (Perrenoud, 1999).
Surge, então, outro ponto
importante, como avaliar as competências?
Costuma-se, infelizmente,
colocar as provas e os testes previamente marcados, como ponto culminante do
processo de aprendizagem, contudo, estudos demonstraram que a avaliação deve
ser algo contínuo e não pontual (Cecim e Feuerwerker, 2004). Deve-se mesclar os
momentos de avaliação escrita, com atividades orais (seminários, debates),
aulas práticas (nos laboratórios e museus de peças anatômicas), estudos
dirigidos e outras atividades que motivem os alunos a mostrarem seus
conhecimentos.
Devemos lembrar que toda a
aprendizagem bem conduzida se caracteriza como um processo altamente dinâmico,
que depende da atividade mental do educando e que se desenvolve pela
mobilização de seus esquemas de raciocínio. Para isso, o ensino deve apelar
para atividade mental do aluno, levando-o a observar, manipular, perguntar,
pesquisar, trabalhar, construir, pensar e resolver situações problemáticas
(Gonçalves, 2001).
Em pesquisa realizada com
350 alunos de diferentes cursos de graduação da área de saúde da Universidade
Federal de Pernambuco, que estudaram a disciplina de patologia geral nos
períodos entre 2002 e 2003, demonstra-se que 35,6% dos alunos encontraram
dificuldades em apreender os conteúdos, e, além disso, 50,2% consideraram as
aulas desmotivadoras, embora a maioria (320 alunos) não percebesse desmotivação
dos professores. Cerca de 98,2% acreditam que atividades didáticas estimulantes
como, aulas práticas, estudo de casos, seminários, estudos dirigidos,
facilitariam bastante o aprendizado.
Desta forma, podemos
concluir que o problema do aprendizado não está no aspecto motivacional do
corpo docente apenas, mas na forma de ensinar (metodologias e didáticas
escolhidas), que de acordo com esta amostragem, necessita de um aprimoramento e
atualização.
Na avaliação, segundo a
doutrina da construção de competências, os seguintes aspectos devem ser
considerados:
·
Desenvolver autonomia progressiva (auto-regulação da aprendizagem);
·
Ver o erro, não como um ponto de reprovação, mas como deficiência a ser
superada;
·
Não deve haver qualquer limitação rígida de tempo quando da avaliação das
competências;
·
Ter domínio do conteúdo sob diferentes aspectos causais e temporais
(aprendizagem contextualizada);
·
Decidir a melhor forma de expor os conhecimentos apreendidos;
·
Utilizar instrumentos de auto-avaliação cruzada (o docente avalia o
discente, e vice-versa).
Contudo, a aplicação
desses conceitos pode se tornar algo complexo, enquanto a escola der tanto peso
à aquisição de conhecimentos desarticulados e tão pouca importância à
contextualização e à construção de competências. Desta forma, toda avaliação
correrá o risco de se transformar em um simples concurso classificatório de
excelências.
Assim concluímos que, o
estudo da patologia associado à construção de competências, pode tornar-se algo
muito prazeroso, motivador e útil para os graduandos tornando-os mais capazes
de se destacar como indivíduos mais críticos e atuarem de forma mais segura
dentro das suas áreas profissionais.
Referências bibliográficas
Ceccim, R.B. e Feuerwerker, L.C.M. (2004). Mudança
na graduação das profissões de saúde sob o eixo da integralidade. Cad. Saúde Pública, 20(5), 1400-1410.
Chandrasoma P., Taylor C.R. (1998). Concise Pathology.
Feurwerker L.C.M. (2002). Mudanças na educação médica: os casos de Londrina e de Marília. Tese de doutorado,
Faculdade de Medicina de São Paulo, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP.
Gonçalves, E.L. (2001). “Pedagogia e didática:
Relações e aplicações no ensino médico”. Rev.
Bras. Educ. Med, 25(1), 20-26.
LDB. (1996). Lei
de diretrizes e bases da educação nacional. FTD
Editora, 5a Ed.
Perrenoud, P. (2002). Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: ArtMed Editora.
Perrenoud, P. (1999). Avaliação: da excelência à regulação das
aprendizagens entre duas lógicas. Porto Alegre: Artmed Editora.
Nota sobre os autores
" - M.R. de Melo-Júnior é Biólogo, Mestre em Patologia
(UFPE) e Doutor em Ciências Biológicas (UFPE). Atua como Professor da
disciplina de Patologia Geral (PPG) e Patologia Especial na Faculdade Maurício
de Nassau (FMN), ASCES e Faculdade do Vale do Ipojuca (FAVIP). Endereço para correspondência: Laboratório de
Imunopatologia Keizo Asami (LIKA), UFPE. Av. Morais Rêgo s/n, Cidade
Universitária, Recife, PE 50670-910. Telefone: (81) 2101-2504. E-mail para correspondência: mariormj@gmail.com. N.T. de
Pontes-Filho é Professor
Titular do Departamento de Patologia (UFPE).
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