© Ciências & Cognição 2007; Ano 04, Vol 12: 02-17 <http://www.cienciasecognicao.org> ISSN 1806-5821

Submetido em 13/10/2007 | Aceito em 26/11/2007 | Publicado online em 03/12/07

 

Classificação: artigo científico - Versão em pdf

 

Como citar este artigo:

Maia, M., Lemle, M. e França, A. I. (2007). Efeito stroop e rastreamento ocular no processamento de palavras. Ciências & Cognição; Ano 04, Vol 12, pp. 02-17. Disponível em www.cienciasecognicao.org

 

 

Efeito stroop e rastreamento ocular

no processamento de palavras 1

 

Stroop effect and eye-tracking in word processing

 

Marcus Maia", Miriam Lemle e Aniela Improta França

 

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

 

Resumo

 

Como é a organização cerebral do léxico? As palavras são guardadas por inteiro ou existe derivação que forma uma estrutura interna a elas? Usando dois paradigmas experimentais, investigamos se a decomposição morfológica é uma propriedade fundamental do processamento lexical na leitura de palavras isoladas no português do Brasil. O primeiro experimento propõe uma tarefa baseada no chamado Efeito Stroop, no qual processos atencionais concorrentes demonstram a natureza automática das fases iniciais do processamento da leitura. O segundo experimento, usando protocolo de rastreamento ocular durante a leitura, investiga as mesmas palavras, pretendendo identificar, preliminarmente, os pontos de fixação e sacadas na primeira passagem do olhar, bem como nos movimentos regressivos. Os resultados obtidos nos dois experimentos permitem reunir evidências de que, no processo de leitura , as palavras são derivadas morfema a morfema, embora haja também heurísticas globais da visão que atuam simultaneamente no processamento da leitura.  © Ciências & Cognição 2007; Vol. 12: 02-17.

 

Palavras-chave: rastreamento ocular; morfologia interna à palavra; efeito stroop.

Abstract

How is the lexicon organized in the brain? Are words stored as units or is there a derivational process dynamically combining its pieces at each use?  The present study, composed by two experimental paradigms, investigates if morphological decomposition is a property inherent to the lexical processing during a reading task in Brazilian Portuguese. The first experiment deals with Stroop Effect, in which attentional processes demonstrate the automatic nature of the initial phases of processing during reading. Using an eye-tracking protocol, the second experiment investigates the process of reading the same words, aiming at identifying, preliminarily, the fixation points and the saccades during first eye scan, as well as the regressive movements.  The results obtained in the two experiments gather evidences that, during reading, words are delivered morpheme by morpheme, despite the fact that there are concurrent global heuristics that act simultaneously in reading. © Ciências & Cognição 2007; Vol. 12: 02-17.

 

Key-words: eye-tracking; morphology internal to words; stroop effect.

1. Introdução

 

Um tema de pesquisa muito produtivo em psicolingüística nas últimas três décadas é a investigação do papel do processamento morfológico2 no reconhecimento de palavras e na organização do léxico na mente dos falantes. Uma questão importante do processamento lexical consiste em  saber como as palavras complexas são armazenadas e acessadas: há decomposição morfológica prévia ao acesso lexical?  Desde os estudos seminais de Taft e Forster (1975;1976), que investigaram experimentalmente a armazenagem e a recuperação de palavras polimorfêmicas na memória lexical, conduzindo ao modelo BOSS, baseado em fatores ortográficos e morfológicos (Taft, 1979), os estudos sobre o parsing perceptual de palavras oferecem evidências contraditórias: de  um lado,   trabalhos de orientação conexionista, como Seidenberg e McClelland (1989) argumentam que os efeitos encontrados em estruturas sublexicais sejam apenas epifenômenos  da redundância ortográfica; de outro lado,  estudos como Marslen-Wilson et alii (1994) apresentam resultados de experimentos de priming evidenciando que as palavras  são, de fato, representadas morfemicamente ao nível da entrada lexical.  Além de sua caracterização conflitante em psicolingüística, a  proposição de segmentos sub-lexicais é controversa  também no âmbito da  teoria gramatical.  Os Modelos   Lexicalistas (e.g. Chomsky, 1995), embora admitindo unidades menores do que a palavra, consideram a palavra pronta como sendo a unidade queentrada na derivação sintática, ao passo que modelos não  lexicalistas, como a Morfologia Distribuída (cf. Halle e Marantz, 1993),  assumem uma computação sintática operando por fases com unidades desprovidas de som. Ao final de cada fase acontece a competição, seleção e inserção de peças de vocabulário nos nós terminais da sintaxe. Estas peças passam então por operações pós-inserção que dão a forma morfofonológica final à derivação

O presente estudo investiga, preliminarmente, se a decomposição morfológica é uma propriedade fundamental do processamento lexical na leitura de palavras isoladas em português, usando dois paradigmas experimentais. O primeiro experimento propõe uma tarefa baseada no chamado efeito Stroop, no qual processos atencionais concorrentes demonstram a natureza automática das fases iniciais do processamento da leitura. Nessa tarefa, adaptada do estudo de Prinzmetal e colaboradores (1986), solicita-se a identificação da cor de uma letra componente de um morfema em condição na qualcorte morfêmico, comparativamente à  condição em que o corte é não morfêmico, incluindo, ainda, como controle, condição de pseudo morfemas ou seja, palavras em queapenas coincidência fonológica com a forma do morfema (e.g.  jornalista x entrevista).  O objetivo do experimento é verificar em que medida no processo da leitura a identificação implícita do morfema no interior da palavra fonológica exercerá efeito de facilitação na realização da tarefa de identificação cromática (por exemplo, a cor da letra i da forma ista). Este efeito será medido através de duas variáveis dependentes: o índice de acertos e os tempos de decisão, computados em milésimos de segundos, utilizando-se a plataforma experimental Psyscope em computador Apple Macintosh.

 Um fator adicional também incluído no design desse experimento é a verificação de eventuais diferenças de desempenho  resultantes da renegociação de significado acarretada pela adição do sufixo à raiz, contrastando-se formas como, por exemplo, jornalista com formas como frentista. Note-se que, no primeiro exemplo, o sufixo  -ista tem sua computação feita tomando por base aquela da palavra jornal, enquanto que em frentista o significado da palavra frente não é o ponto de partida da computação semântica causada pela introdução do sufixo -ista, embora as duas palavras compartilhem a raiz frent-.

Utilizando o equipamento Head-fixed Viewpoint Eye-tracker (CLIPSEN/CNPq), o segundo experimento investiga o rastreamento ocular das mesmas palavras, pretendendo identificar, preliminarmente,  os pontos de fixação e sacadas na primeira passagem do olhar, bem como nos movimentos regressivos. Os resultados obtidos nos dois experimentos permitem reunir evidências para  avaliar se, no processo de leitura,  palavras complexas são parseadas morfologicamente, concatenando-se raízes a afixos,  em contraste com os modelos que postulam a ativação lexical  indiferenciada de vocábulos plenos.

O artigo é organizado da seguinte forma. Na seção 2, faz-se  uma breve revisão  da literatura sobre o processamento da morfologia em palavras isoladas, com especial atenção para a caracterização dos modelos de reconhecimento de palavras escritas, procurando estabelecer o quadro teórico relevante para a discussão dos experimentos. A seção 3 reporta o experimento de decisão cromática e a seção 4, o experimento de rastreamento ocular. A seção 5 apresenta as conclusões do artigo.

 

2. Modelos de processamento morfológico

           

Ao ler uma palavra, acessamos o seu significado na íntegra, diretamente no léxico mental, ou precisamos, preliminarmente, realizar operações de decomposição morfológica, concatenação e interpretação composicional?  O acesso lexical direto é uma heurística do tipo top-down3, em que se procede diretamente do input sensorial para um nível de representaçãomais alto”do item lexical, ou seja, a palavra inteira, tomada como um listema (cf. Di Sciullo e Williams, 1987), sem precisar recorrer à análise de possíveis subcomponentes do item. A decomposição morfológica, por outro lado, é um algoritmo bottom-up em que o acesso lexical é o produto final de operaçõesmenores” de segmentação de morfemas, identificando-se subunidades lexicais que são, então, montadas em todos maiores, os itens lexicais. Os modelos de acesso lexical direto, também denominados de modelos de listagem plena,  economizam em recursos computacionais, mas precisam contar com alta capacidade de armazenagem mnemônica. Os modelos composicionais ou de parsing pleno, por outro lado, demandam maior custo computacional, mas economizam na armazenagem mnemônica. Uma terceira alternativa admite a possibilidade de que os dois tipos de processosheurísticas top down e algoritmos bottom-up – possam coexistir no processamento lexical.  São os modelos mistos ou duais, que lançam mão dos dois tipos de recursos, prevendo uma espécie de competição entre eles.

O modelo de Affix-Stripping de Taft e Foster (1975) é o precursor dos modelos estruturais. Utilizando uma tarefa de decisão lexical, Taft e Foster demonstraram que palavras com raízes reais precedidas por prefixos (e.g. re+cursion) são mais difíceis de rejeitar do que palavras com pseudo-raízes (re+pertoire). Uma vez que as raízes reais seriam armazenadas separadamente dos afixos, sua rejeição é mais lenta, pois após a operação de isolamento do afixo  estas raízes que podem, de fato, ser localizadas no léxico, requerem consideração extra na tarefa de decisão lexical. Por outro lado, as palavras com pseudo-raízes apresentaram tempos de rejeição menores justamente por não poderem ser localizadas no conjunto de raízes possíveis no léxico. Posteriormente, Taft (1979) demonstra que o efeito de decomposição morfológica do modelo Affix-Stripping também pode ser obtido em palavras com sufixos. Taft (1994) faz ajustes no modelo prevendo que a decomposicionalidade morfológica seja a rota default, mas que o fator freqüência possa também exercer um efeito que resulta em pouca ativação dos morfemas nas palavras mais freqüentes, aproximando, na prática, seu modelo dos modelos duais.

No extremo oposto, a hipótese Full Listing de Butterworth (1983) propõe que as palavras estejam disponíveis para reconhecimento no léxico com sua morfologia, sendo acessadas apenas em sua forma plena, sem qualquer operação decomposicional. Também os modelos conexionistas como, por exemplo,  o desenvolvido por Seidenberg e McClelland (1989), propõem uma  arquitetura paralela e distribuída de reconhecimento visual de palavras em que se pretende que ajustes nos pesos das conexões entre unidades ortográficas e fonológicas sejam propagados através de algoritmo de aprendizagem, sendo capazes de simular o reconhecimento de palavras de forma associativa e rápida, sem utilizar a informação morfológica.

No caminho do meio, estão os modelos mistos ou duais, que combinam aspectos dos dois modelos anteriores. O modelo de Augmented Addressed Morphology - AAM de  Caramazza e colaboradores (1988) propõe que as palavras familiares sejam acessadas de forma plena, enquanto que as palavras desconhecidas sejam alvo de processos decomposicionais.  O modelo de dupla rota paralela de Schreuder e Baayen (1995) propõe que tanto uma rota de parsing morfológico quanto uma rota direta sejam acionadas, em paralelo, desde o início do processo de reconhecimento lexical. O modelo de Marslen-Wilson e colaboradores (1994), estabelecido com base em experimentos de priming,  propõe que a decomposição morfológica seja mais provável quando a relação entre a palavra composta com afixos e a sua raiz é transparente. Outro modelo, o de Pinker (1991) prevê que as formas regulares, como, por exemplo, os passados simples formados em –ed, em inglês, sejam acessados via concatenação morfológica, enquanto que os passados irregulares, como taught, por exemplo, sejam armazenados plenamente no léxico. Stockall e Marantz (2006), por outro lado, apresentam evidências de experimentos utilizando a técnica de Magneto-encefalografia, de que um único mecanismo de concatenação morfológica dá conta tanto dos passados regulares quanto dos irregulares em inglês.

Como se , a literatura apresenta grande divergência de posições teóricas e métodos.  Os experimentos reportados nas seções a seguir têm o intuito de investigar preliminarmente a questão a partir do exame de dados do português, procurando avaliar de forma ampla os três tipos de modelos de processamento lexical resenhados acima a partir de dados recolhidos da atividade de leitura.

 

 

3. Experimento 1 – Decisão cromática no processamento de palavras isoladas

 

Este estudo baseia-se no chamado “efeito stroop”, estabelecido através de uma série de experimentos clássicos em que se testou a nomeação cromática  em  palavras para cores  escritas com letras em cores que podiam concordar ou não com a denotação das palavras (cf. Stroop, 1935). Conforme ilustrado na Figura 1, abaixo, as respostas eram  mais rápidas quando havia convergência do que quando havia divergência.

Figura 1 - Efeito Stroop.

 

A interpretação destes resultados geralmente sugere que a dificuldade em nomear palavras com discordância entre a nomeação cromática e a cor das letras se deve a competição, neste caso, entre significado literal e outro metafórico

No presente experimento, estabeleceu-se uma outra sorte de discordância cognitiva: morfológica e visual. A hipótese aqui é a de que uma letra poderia ter sua cor identificada mais acertada e rapidamente quando fizesse parte de um morfema em que todas as letras tivessem a mesma cor. A variável independente “recorte cromático” indica, portanto, que a manipulação de cores poderia singularizar o morfema com todas as letras na mesma cor  (corte morfêmico) ou não (corte não morfêmico).  Outra variável independente do experimento foi chamada de tipo de morfema, incluindo três níveis, a saber, morfema concatenado a palavras (MP), pseudo-morfema (PM) e morfema concatenado a raízes (MR).

As variáveis dependentes do experimento foram os índices de acerto cromático e os tempos de decisão. A variável independentetipo de morfema” permitiu que se examinasse o papel de três fatores no processamento de palavras em português:

 

(1)   Morfemas concatenados a palavras (MP): palavras formadas por concatenação de um morfema a uma palavra, havendo transparência semântica entre a palavra complexa e a base da qual ela é derivada;

(2)   Pseudo-morfemas (PM): controles ortográficos em queapenas uma coincidência ortográfica com a forma dos morfemas.

(3)   Morfemas concatenados a raízes (MR): palavras  formadas por concatenação de um morfema a uma raiz, situação em que o significado da palavra é arbitrário e a leitura é dada na enciclopédia.

 

3.1.   Materiais e métodos

 

Participantes

 

Participaram do experimento, como voluntários,  20 alunos do terceiro período de graduação em Letras da UFRJ, todos com visão normal ou corrigida.

 

Materiais

 

Os materiais experimentais foram três listas de 14 palavras cada, tendo-se procurado controlar o tamanho  e a freqüência de ocorrência médios das palavras cada lista. Os tamanhos foram equalizados, tendo cada lista, em média, 45 sílabas e 104 letras. As freqüências tiveram como índice para o seu estabelecimento o número de ocorrências no sistema de buscas Google, à época em que o experimento foi realizado. As diferenças médias entre os índices de ocorrência dos itens das três listas não foram significativamente diferentes. A Figura 2 exemplifica as três listas:

 

 

Figura 2 - Exemplos dos materiais experimentais

 

O design em quadrado latino permitiu que todos os sujeitos fossem expostos a todas as condições, mas não aos mesmos itens em todas as condições, havendo,  portanto,  distribuição do tipo de corte “between subjects” em dois grupos. A Figura 3 ilustra as seis condições experimentais em que se controlou também, sistematicamente, o contraste de cores verde e vermelho.

 

 

Figura 3 - Condições experimentais.

 

Além dos 42 itens experimentais, incluiram-se no teste oitenta itens distrativos em que letras no início e no fim das palavras eram destacadas cromaticamente.

 

Procedimentos

 

Os participantes foram testados individualmente em sala isolada, em que se encontrava o computador Macintosh I-Mac de 360MHz e uma caixa de botões. Ao pressionar a tecla amarela na caixa de botões ao lado do computador, uma palavra era chamada à tela por 4 segundos, sendo, após esse lapso, automaticamente substituída por tela em que uma mesma letra aparecia em verde e  em vermelho seguida de ponto de interrogação. Nos itens experimentais, esta letra era sempre a primeira letra do sufixo ou do pseudo-morfema. Nos distratores, esta letra estava em outras posições, no início ou no fim da palavra.  Os participantes deveriam, então, escolher a cor da letra, apertando a tecla verde ou a tecla vermelha na caixa de botões. O programa Psyscope registrava, então, a decisão do sujeito, bem como os seus tempos de reação. Após sua decisão, os participantes deveriam apertar a tecla amarela para que outra palavra fosse chamada à tela, prosseguindo conforme descrito anteriormente até que todas as palavras tivessem sido apresentadas, o que era assinalado por uma última tela com a palavra FIM. As Figuras 4, 5 e 6, ilustram respectivamente a caixa de botões, a primeira tela em que uma palavra era apresentada e a segunda tela em que a cor de uma letra era perguntada.

Figura 4 - Caixa de botões.

 

 

Figura 5 - Exemplo de tela em que o estímulo era apresentado por 4 segundos.

 

Figura 6 - Exemplo de  tela com pergunta sobre a cor de letra .

 

 

3.2. Resultados

 

Os resultados estão apresentados na Tabela 1 e nos Gráficos 1 e 2 abaixo. Observe-se que  o índice  de acertos na condição MPC  é significativamente maior do que na condição MPN (X2=12,85; p = 0,0003) e que os tempos de decisão de acerto de MPC são significativamente mais rápidos do que os de MPN (t = 3,797; p = 0,0002), confirmando queum efeito de recorte cromático atuante nas condições com morfemas. O recorte cromático dos morfemas foi, de fato, um fator facilitador nas decisões, fazendo aumentar o índice de acertos e diminuindo o tempo médio de decisão. Observe-se, em seguida, que o mesmo não se instancia na comparação PMC x PMN que apresentam índices de acerto (X2= 0,2800; p = 0,5967) e de tempos de decisão de acerto (t = 1,120; p = 0,264) indiferenciados. Finalmente, a comparação das últimas duas colunas entre si indica que o efeito do recorte cromático também se instancia significativamente ao se comparar MRC com MRN. O índice de acertos na condição MRC é significativamente maior do que na condição MRN (X2=14,74; p = 0,0001) e os tempos de decisão de acerto de MRC são significativamente mais rápidos do que os de RN (t = 4,645; p = 0,0001).

 

Tabela 1 – Índices de acerto e tempos de decisão por condição.

Grafíco 1 – Índices de acertos.

 

Gráfico 2 – Tempos de decisão.

 

3.3. Discussão

 

Os resultados obtidos indicam que os sujeitos reconhecem mais acertada e rapidamente a cor da letra alvo nas condições com recorte morfêmico, esteja o morfema em concatenação com uma palavra(MP) ou com uma raiz (MR). Por outro lado, não se observou efeito de recorte cromático significativo, quer nos índices, quer nos tempos de decisão acertada, nas condições com pseudo-morfema (PM).

Esses resultados sugerem que os leitores utilizariam um procedimento de parsing morfológico pleno, isolando os morfemas que compõem uma palavra, quer esses morfemas estejam em relação de transparência, quer estejam em relação de opacidade com a base. Nas condições com morfemas concatenados a palavras (MP), os leitores identificariam a palavra e o sufixo. Por exemplo, ao ler a palavra malinha, fariam a segmentação mala+inha para chegar ao significadomala pequena”. Também nas condições com morfemas concatenados diretamente à raiz (MR), esta segmentação se instanciaria. O que os resultados parecem  estar indicando é que existe uma operação crucial de concatenação de morfema com raiz que ocasiona uma negociação de significado, a qual pode ser acrescida de mais uma concatenação, cujo aporte semântico regular é processado em tempo mínimo.

Crucialmente, no entanto, as condições com pseudo-morfemas em que não se observam efeitos significativos de recorte cromático, parecem sugerir que os leitores têm conhecimento intuitivo da morfologia, não segmentando morfemas quandoapenas material ortográfico não segmentável, como é o caso das palavras da lista PM. Por exemplo, ao ler  a palavra espinha, derivada do latim spina, ae, o processador morfológico não seria ativadopara segmentar, reconhecer e fornecer a interpretação ilegítima “espi pequeno”, uma vez que, nesse caso, nãomorfema diminutivo a ser segmentado e processado, apenas material ortográfico semelhante que a competência lingüística do falante saberia diferenciar de um morfema verdadeiro.

 

4. Experimento 2 – Rastreamento ocular

 

Este experimento rastreou os movimentos oculares na leitura do mesmo conjunto de palavras do experimento anterior, sem, no entanto, incluir a manipulação cromática. A hipótese era a de que as palavras com morfemas, sejam as transparentes, sejam as opacas, apresentariam maiores tempos médios de fixação e maiores índices de movimentos sacádicos progressivos ou regressivos do que as palavras com pseudo-morfemas. Esses índices mais elevados de fixação e movimentação ocular nas condições com morfema refletiriam a atividade de concatenação morfêmica levada a efeito no processamento visual dessas palavras, em oposição ao acesso mais direto,  a ser observado nas condições com pseudo-morfemas, em que não se esperariam níveis significativos de computação internapalavra. A literatura sobre rastreamento ocular da leitura reconhece não que medidas de movimento ocular possam ser usadas para inferir processos cognitivos que variam de momento a momento na leitura, mas também que a variabilidade das medidas refletem o processamento on-line (cf. Rayner, 1983). Mais especificamente, Kuperman e colaboradores (2006) demonstraram  que a complexidade morfológica na leitura de palavras isoladas em holandês implica maiores tempos de fixação.

Os três fatores da variável independente tipo de morfema (MP, PM e MR) são examinados no presente estudo, que tem como variáveis dependentes os tempos de fixação e os índices de  movimentos sacádicos na leitura das palavras.

 

4.1. Materiais e métodos

 

Participantes

 

Participaram do experimento 16 alunos de graduação do curso de Fonoaudiologia da UFRJ, com visão normal, sem necessidade de uso de óculos ou lentes de contacto.

 

Materiais