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© Ciências &
Cognição 2007; Ano 04, Vol
12: <http://www.cienciasecognicao.org>
ISSN 1806-5821 Submetido em 17/10/2007 | Aceito em 26/11/2007 | Publicado online em
03/12/07 Classificação: ensaio - Versão em pdf
Como citar este artigo: Demidoff, A. de O.; Pacheco, F.G.; Sholl-Franco,
A. (2007). Membro-fantasma:
o que os olhos não vêem, o cérebro sente. Ciências
& Cognição; Ano 04, Vol
12. Disponível em www.cienciasecognicao.org
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Phantom-limb: what the
eyes don’t see, the brain feels
Alessandra de Oliveira Demidoff",
a, Fernanda Gallindo Pachecoa
e
aFaculdade de Medicina, Centro de Ciências da Saúde (CCS), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; bPrograma de Neurobiologia, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), Centro de Ciências da Saúde, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Resumo
Os estudos sobre membro-fantasma se iniciaram a partir
de relatos de pessoas que sofreram amputação de algum
membro, lesão de plexo braquial ou até mesmo em pacientes tetraplégicos que
diziam sentir sensações da presença do membro perdido ou inativo, as quais
muitas vezes eram dolorosas. Durante muito tempo, acreditava-se que a origem da
sensação fantasma era psíquica, no entanto, sabe-se hoje que tal fenômeno está
relacionado também com o fisiológico, a partir da reorganização cortical, que
consiste em alterações estruturais na representação topográfica dos mapas
corticais. O objetivo deste trabalho é abordar os diversos fatores que
ocasionam a sensação de membro fantasma, assim como seus principais sintomas
além de apresentar experiências já realizadas em indivíduos portadores deste
fenômeno. © Ciências & Cognição 2007; Vol. 12.
Palavras-chave: membro-fantasma; dor fantasma; imagem corporal; homúnculo de Penfield; reorganização funcional cortical.
Abstract
The researches
about phantom limb begun with relates of people that suffered limb amputation
or brachial plexus avulsion, and even in tetraplegic subjects that related the
feeling of the lost or inactive limb, and many
times these feelings were painful. During many time, we believed that the cause
of the phantom limb feeling was psychic, but nowadays we know that this
phenomenon is related to a physiological cause
as well, whit the cortical reorganization, that consist in structural
modifications in topographic representation of the cortical maps. The aim of this work is to point the
different factors that cause the phantom limb feeling and the principal symptoms of this
phenomenon, as well as show experiences already develop in subjects that
present this phenomenon. © Ciências & Cognição 2007; Vol. 12.
Keywords: phantom limb; phantom pain; corporal image; Penfield’s homunculus;
cortical functional reorganization.
Introdução
Pode-se definir como membro fantasma a experiência de possuir um membro ausente que se comporta similarmente ao membro real, assim como sensações de membro fantasma a vários tipos de sensações referidas ao membro ausente (Rohlfs e Zazá, 2000). A sensação da presença do membro ou do órgão após a sua extirpação é descrita por quase todos os doentes que sofreram amputação e muitas vezes vem associada a dor que varia em intensidade e duração de caso para caso.
Muitos indivíduos afirmam que o fantasma se manifesta de forma rígida e que, em muitos casos, estão na posição em que perderam o membro. Além disso, relatam que quando o membro se movimenta em direção a um objeto, o fantasma penetra neste objeto, podendo também atravessar o próprio corpo do paciente. Um outro relato consiste no fato de que, muitas vezes, uma parte do membro amputado desaparece, permanecendo apenas, a extremidade distal do mesmo (Schilder, 1989).
A sensação de ter um membro fantasma durante muito tempo despertou em muitos o medo da loucura, sendo motivo de segredo e até mesmo vergonha. Muitos indivíduos omitiam dos médicos a sensação de ter um membro fantasma, devido ao receio de serem considerados insanos, entretanto, com o passar do tempo, as hipóteses psicológicas foram cedendo lugar para as hipóteses fisiológicas.
A sensação fantasma pode ser compreendida como uma superposição cortical de áreas vizinhas, que pode ocorrer, por exemplo, pela invasão do território representativo da face sobre o território da mão, ou até mesmo pelo desmascarar de sinapses silenciosas.
A sensação de membro fantasma pode se manifestar nos indivíduos em diferentes situações, como por exemplo: amputação de algum membro, em casos de aferição de plexo braquial, e, até mesmo em situações de tetraplegia (Conceição e Gimenes, 2004). Segundo Ramachadran e Blakeslee (2002) não são apenas pernas e braços fantasmas, há muitos casos de seios fantasmas em muitas pacientes que sofreram uma mastectomia radical (retirada da mama). Um outro registro foi um caso de apêndice fantasma onde o paciente se recusava a acreditar que o cirurgião o tinha retirado devido às dores que persistiam.
Sabendo-se que o fenômeno da sensação fantasma pode se manifestar em variadas circunstâncias, as situações mais comuns serão descritas mais detalhadamente, juntamente com algumas pesquisas realizadas em pacientes que possuem a sensação fantasma.
Sintomas
A sensação de ter um membro-fantasma é muito real. Muitos indivíduos relatam que, logo que perderam a perna, sentiram o impulso de sair da cama e andar, e acabaram caindo, outras pessoas com mãos fantasmas já tentaram, até mesmo, atender o telefone. Esses fatos são conseqüências da vívida sensação de um membro fantasma.
Dentre os sintomas descritos por pacientes com sensação de membro fantasma, os que se apresentam com maior freqüência são: a dor “fantasma”; dormência; queimação; câimbra; pontadas; ilusão vívida do movimento do membro fantasma, ou até mesmo, apenas a sensação de sua existência. Em casos de lesão do plexo braquial, são relatados também; estiramento da mão inteira que irradia para o cotovelo; constrição do pulso; espasmos da mão e descargas elétricas na mão e cotovelo (Giraux e Sirigu, 2003).
Uma outra
sensação de membro fantasma já observada consiste no desaparecimento de partes
do membro, permanecendo apenas, a extremidade distal do membro, o que pode ser
explicado com base no fato de que o modelo postural do corpo se desenvolve
especialmente em contato com o mundo externo. Sendo assim, as extremidades
corporais que mantêm um contato mais estreito e variado com a realidade tendem
a ser mais presente que as demais (Schilder, 1989).
Além disso, pode ser observado o fenômeno de duplicação de membros, caso
dificilmente encontrado, no qual pacientes relatam ter a vivida sensação da
presença de outros dois membros, paralelamente com seus membros reais (Conceição e Gimenes, 2004)
Psíquico versus fisiológico
Durante milênios acreditava-se que as sensações em partes ausentes do corpo eram de origem psíquica, entretanto, a partir deste século, as explicações psíquicas foram cedendo lugar às explicações fisiológicas.
Grande parte de nossas informações sensoriais está relacionada com áreas específicas do córtex pós-central, de modo que permitem a construção de mapas sensorial, destacando-se aqui o mapa somato-sensorial presente no giro pós-central (Schilder, 1989). Como resultado, cada indivíduo tem uma imagem interna que é representativa do próprio ser físico, sendo esta conhecida como “imagem corporal”.
A imagem corporal é construída de acordo com as percepções, idéias e emoções sobre o corpo e suas experiências, podendo ser, constantemente, mudada. Sendo assim, o fantasma de uma pessoa amputada seria a reativação de um padrão perceptivo dado pelas forças emocionais. Está claro que o quadro final de um fantasma depende grandemente de fatores emocionais e da situação de vida do indivíduo. Depois da amputação, o indivíduo sofre um grande impacto psicológico e vários distúrbios emocionais surgem na adaptação física e social, o que lhe faz enfrentar uma nova situação, mas como reluta em aceitá-la, acaba tentando, inconscientemente, manter a integridade de seu corpo (Schilder, 1989).
Desse modo, o membro-fantasma pode ser entendido como a interação entre o que se detecta ao nível periférico (corpo) e o que se integra ao nível central (mente), sendo criada então, a aparência final do corpo no sistema nervoso. Como o ser humano está acostumado a ter um corpo por completo, o fantasma acaba sendo a expressão de uma dificuldade de adaptação a um defeito súbito de uma parte periférica importante do corpo. Além desse fator, o córtex cerebral, que possui um mapa sensorial das partes do corpo, ainda possui uma área de representação da região amputada, o que dificulta o cessar das sensações corporais. Assim, as sensações de membro fantasma são caracterizadas por fatores psíquicos e fisiológicos, que agem, conjuntamente para expressar tal fator.
Arrumando a bagunça: o fenômeno de reorganização funcional do córtex
cerebral
As áreas de representação cortical, denominadas mapas corticais (e.g. homúnculo de Penfield) podem ser modificadas através da plasticidade neural a partir de alterações estruturais (adaptativas) por estímulos sensoriais, experiência, aprendizado, e após lesões cerebrais (Lundy-Ekman, 2004). Assim, em indivíduos que sofreram amputação ou lesão do plexo braquial é que podemos observar alterações sinápticas que podem explicar o proceso de fortalecimento (desinibição) de sinapses anteriormente silenciosas. No sistema nervoso normal, muitas sinapses parecem não ser usadas, a não ser que a lesão de vias acarrete um maior uso das sinapses até então silenciosas (Farnè et al., 2002).
A organização cortical é alterada após alguma perda sensorial, sendo assim, áreas que antes eram ativadas pelo membro amputado passam a ser invadidas por neurônios de áreas não alteradas cujas representações tenham localizações próximas no córtex. Na amputação de mãos a área da face “invade” a área da mão, consistente com os relatos de estimulação tátil da face induzindo sensações de mão fantasma em amputados. O sistema motor mostra, portanto uma capacidade substancial de plasticidade (Farnè et al., 2002).
Pacientes que tiveram seus membros superiores
transplantados após uma amputação possibilitaram o estudo de reversibilidade da
organização cerebral após lesão periférica, utilizando-se de análises de
ativações de M1 antes e após o transplante, observando suas evoluções ao longo
do tempo. Em um estudo (Giraux et al., 2001) os resultados mostram que as mãos transplantadas são
ativadas e reconhecidas pelo córtex sensório-motor, sendo que as novas entradas
periféricas permitiram uma remodelagem global do mapa cortical das extremidades
e reverteram à reorganização induzida pela amputação. As representações de mão
e braço tendem a retornar a seus locais originais;
este estudo tenta explicar essa reversibilidade cortical dizendo que em macacos
com segmentos amputados, motoneurônios eferentes
rompidos preservam sua eficácia
funcional direcionando-se para novos músculos (Farnè et al., 2002). Como os neurônios eferentes e aferentes da
via central sobrevivem
após serem cortados, o circuito sensório motor pode estar funcionalmente pronto
após o transplante, podendo explicar as mudanças na atividade cortical poucos
meses após o transplante de membro.
Em um outro caso, descrito por Conceição e Gimenes (2004), um paciente tetraplégico referia ter uma vívida sensação de duplicação de membros. Dizia possuir um par de mãos que se situavam paralelamente ás mãos normais e duas pernas igualmente situadas paralelamente ás pernas reais. O paciente também referia que o par de braços cruzava em cima do peito e lhe causavam dificuldades respiratórias. A pesquisa realizada, neste caso, utilizou a técnica de biofeedback, que é usada na aprendizagem de controle voluntário de respostas fisiológicas específicas. No fim do tratamento o paciente apresentou como resultado a eliminação total da queixa, resultando na recuperação da capacidade motora funcional.
Uma outra maneira de encontrarmos o membro fantasma é através da lesão de plexo braquial, onde o paciente parece sofrer com a sensação do membro perdido assim como a dor a ele relacionada, mesmo não havendo a perda física do membro (amputação). Giraux e Sirigu (2003) mostraram que em pacientes com lesão de plexo braquial onde eram aplicados testes com exposição a movimentos virtuais do membro verificou-se que há indução de mudanças plásticas na representação cortical do membro danificado e que esta plasticidade estava relacionada a mudanças na sensação de dor fantasma. A gravação dos movimentos da mão normal que eram refletidos por um espelho dava ao paciente a ilusão de que quando ele realizava determinado tipo de movimento era o seu membro afetado que estava realizando, sendo ele instruído a mexer com o membro fantasma ao olhar para o espelho. Foi observada uma melhora significante na avaliação da atividade do córtex entre o pré e pós-treinamento assim com a diminuição da dor para esses pacientes sendo que dos 3 avaliados 2 reduziram sua medicações no final da pesquisa graças à diminuição da dor.
Considerações finais
Apesar de não se saber ao certo a origem da sensação do membro fantasma, sabe-se que esta é baseada tanto em fatores psíquicos como em fatores fisiológicos. Sabe-se também que ainda não existe um tratamento específico para tal fenômeno. Entretanto, existem terapias e medicamentos que são utilizados para a redução da dor, sem contudo terem se mostrado eficazes para a cura da dor fantasma e de suas sensações. Desse modo, como não existe, ainda, uma cura para o fascinante fenômeno das sensações fantasmas, muitos indivíduos precisam se adaptar com essa situação, como descrito no relato:
“Hoje sou altamente conformista de que sou amputado e vivo bem como estou. Porém, como vivi 34 anos com a perna e há cinco anos e meio sem a perna, em todos os meus sonhos à noite, eu tenho a perna. O cérebro, o inconsciente ainda mantém a memória anterior. Hoje eu sou um grande jogador de tênis nos meus sonhos, coisa que eu não era antes. É muito comum eu sonhar com uma partida inteira, desde o primeiro ponto até o final, ganhando ou perdendo. Acordo suado e feliz por ter jogado uma partida de tênis, com a perna que eu não tenho.” (Disponível no endereço eletrônico: http://www.amputadosvencedores.com.br/fenomeno_membro_fantasma.htm).
Sendo assim, este trabalho propôs-se a
realizar uma breve revisão da literatura, de forma a identificar as informações
mais objetivas e acuradas a respeito da sensação do membro fantasma, tema de
extrema importância e ainda pouco explorado nos ambientes acadêmicos e clínicos
de nosso país.
Referências bibliográficas
Conceição, M.I.G. e Gimenes, L.S. (2004). Uso de biofeedback em paciente tetraplégica com sensação de membro fantasma. Interação em Psicologia, 8 (1), 123-128. Disponível no endereço eletrônico: http://calvados.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/psicologia/article/viewFile/3246/2606.
Farne, A.; Giraux,
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Giraux, P.; Sirigu, A.; Schneider F. e Dubernard
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Giraux, P. e Sirigu, A. (2003). Ilusory movements of the paralyzed limb restore motor córtex activity. Lyon: Institut des Sciences Cognitives, CNRS.
Lundy-Ekman, L. (2004).
Neurociência: Fundamentos para reabilitação. 2 ª edição. (pp.125-137). Rio de janeiro: Editora Elsevier.
Ramachadran, V.S. e Blakeslee, S. (2002). Fantasmas
no Cérebro - uma investigação dos mistérios da mente humana. (Machado, A., Trad.). Rio de Janeiro: Editora Record.
Rohlfs, A e Zazá, L . (2000).
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Disponível no endereço eletrônico: http://www.icb.ufmg.br/neurofib/NeuroMed/Seminario/DorFantasma/f6.htm.
Schilder, P. (1989). A imagem do corpo: As energias construtivas da psique. São Paulo: Editora Martins Fontes.
Teixeira, M.J.; Imamura, M. e Peña Calvimontes R.C. (1999). Phantom pain and
limb
amputation stump pain. Rev. Med., 78, 192-196.
Nota sobre os autores
" – A.O. Demidoff é Monitoras de Neurofisiologia, Programa de Neurobiologia (IBCCF, UFRJ) e Graduanda do Curso de Fisioterapia, Faculdade de Medicina (UFRJ). E-mail para correspondência: alessandrademidoff@gmail.com; F.G. Pacheco é Monitora de Neurofisiologia, Programa de Neurobiologia (IBCCF, UFRJ) e Graduanda do Curso de Fisioterapia, Faculdade de Medicina (UFRJ). E-mail para correspondência: nandagp_fisio@hotmail.com; A. Sholl-Franco é Biólogo (FAMATh), Especialista em Neurobiologia (UFF), Mestre e Doutor em Ciências (UFRJ). Atua como Professor (IBCCF, UFRJ) e Orientou este trabalho. Endereço para correspondência: Sala G2-032, Bloco G, CCS, Programa de Neurobiologia, IBCCF, UFRJ. Av. Brigadeiro Trompowiski S/N, Cidade Universitária, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro, RJ 21.941-590, Brasil. Telefone: +55 (21) 2562-6562. E-mail para correspondência: asholl@biof.ufrj.br.
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