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© Ciências & Cognição 2007;
Ano 04, Vol 12: <http://www.cienciasecognicao.org>
ISSN 1806-5821 Submetido em 15/10/2007 | Aceito
em 26/11/2007 | Publicado online em 03/12/07 Classificação: resenha -
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Como citar este artigo: Aranha, M. (2007). Repensando a função do manicômio na sociedade. Ciências & Cognição; Ano 04, Vol 12. Disponível em www.cienciasecognicao.org |
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Repensando a função do manicômio
na sociedade
Núcleo de Psicologia e Comportamento,
ICC, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

Clínica em movimento: por uma
sociedade sem manicômio (2003). Ana Maria Lobosque. Editora Garamond, ISBN 85-86435-92-9, 200 págs.
Palavras-chave: filosofia da ciência; saúde
mental, psiquiatria.
Este é um livro que desde o título mostra seu
compromisso abrangente
com a análise da alma na luta revolucionária dos profissionais que a praticam
pelo viés do ideal antimanicomial.
O livro propõe novos modelos para o exercício da clínica
psiquiátrica e, ao mesmo tempo, instrumentaliza
idéias para um projeto de sociedade mais humana. Esta mudança de paradigma alavanca
a crença num projeto terapêutico para a loucura, mostrando a impossibilidade de
reconhecimento desta em sua singularidade e diferença. A obra evidencia a vocação
originariamente totalitária dos hospitais psiquiátricos, o que demonstra ser o
tratamento da loucura permeado de uma coletiva vontade de poder que captura e
exclui a loucura do espaço político da cidadania. A abordagem, tão bem
encadeada tem por fim o
desencadeamento de um movimento que impulsiona a abordagem clínica a um
exercício de autonomia e liberdade das pessoas.
A obra leva ao questionamento do papel da
psicanálise no contexto da loucura tendo em vista que nem mesmo ela, que tanto
prometera reconhece no delírio uma tentativa de cura e re-organização do
equilíbrio psíquico. Mesmo a psicanálise se voltou para a normatização
da loucura oferecendo como modelo estruturante a
mítica edipiana. Na edificação do Instituto da Lei normativa à loucura, a
família passa a representar a moral que deve ser imposta às manifestações psicóticas,
como se a cura aí se encontrasse. Portanto, o grande destaque do texto é que
sua abordagem parte do sofrimento humano para a ele retomar como compreensão
que não se furta ao embate diário com a miséria humana. Um “movimento” que é
também comprometimento.
Este livro se debruça sobre a filosofia de
Nietzsche para propor uma transvalorização da ética e
da política, com a finalidade de reconhecer não apenas a positividade da
loucura como experiência, mas também de que maneira ela pode ser um remodelador
de nossa cultura. O sentido político que advém da desospitalização
tem por missão o enfrentamento de modelos lucrativo economicamente.
A obra de Ana Marta Lobosque
lança mão de outros autores contemporâneos como Foucault, Deleuze e Guattari, para esboçar a desconstrução
dos conceitos de lei, desejo e culpa dominantes no Ocidente. Preocupa-se em
revisar as estruturas que sustentam o modelo especulativo-científico, confessional-analítico,
singular-coletivo, autonômico-normatizado para se dar
a devida dimensão ao texto da autora e a sua proposta de novas práticas de
convívio com a loucura. Assim, busca romper definitivamente com as Instituições
manicomiais como forma de resgate a dignidade humana
prolatada, até mesmo, pela Constituição.
Na parte I do livro, "Clínica em Movimento: o
cotidiano de um serviço substitutivo de saúde mental", a autora expõe sua
posição ao abordar o modelo asilar e o racional no contexto de uma sociedade
global. Demonstra a desigualdade e preconceito que permeiam o tratamento do
portador de transtorno mental. Isso significa que para que haja uma nova
contextualização do tratamento, haverá a necessidade de uma mudança estrutural
em todos os setores que se voltam para a abordagem da
saúde mental. Indo desde a capacitação técnica até revisões conceituais de
grande complexidade. Mas o foco da autora é a clínica da saúde mental e é nela
que centra suas reflexões. Por assim ser, questiona a noção habitual de
clínica, que tem servido mais aos profissionais que aos pacientes.
Ana Maria Lobosque critica
os profissionais da saúde mental por transformarem suas abordagens e set terapêuticos em
lugares que tem por fim acolher o suposto saber individualista. Negando
a interdisciplinaridade, a singularidade, a autonomia e a cidadania do portador
de sofrimento mental. Incita a novas prática que
contemple uma forma de superação não só autocrítica, mas também implicada nas
questões de políticas públicas. A autora convida à uma
reflexão sobre a respeitabilidade às diferenças que deve permear o convívio
entre os operadores da saúde mental e sua clientela. Na busca de uma vivência
conjunta, uma aposta no encontro de um espaço coletivizado, respeitador e
acolhedor ao “diferente” e suas necessidades.
Na parte II, a autora fala da influência sofrida no
contato com os textos de Freud, da sua relação com a psicanálise, com a saúde
mental e suas práticas. Expõe as contribuições dos textos de Foucault, Delueze e Guatari e o retorno a
Freud proposto por Lacan. Os textos confrontam a autora com elementos
constitutivos do universo “psi” tais como aspectos políticos, modelos
científicos, o Instituto do poder que permeia as relações, objetos e sujeito.
Finalizando, na parte III, defende-se a igualdade, a
partir da reflexão sobre o presente e se afirmando que em toda sociedade organizada
o direito é uma conquista edificada pela própria sociedade, pois que a
sociedade não serve ao direito, mas sim o direito, ao normatizar,
o faz em prol da sociedade a qual deve existência.
Desta forma, observa-se que o “movimento” proposto
por Lobosque soa como um caminhar refletido e
transformador em prol de uma prática clínica que se alia a justiça social,
lembrando que o portador de transtorno mental é, antes de mais nada, um sujeito
de direito, portanto, um cidadão.
Nota
sobre o autor
"
– M. Aranha é Médico
(UFJF), Especialista em Neurociência e Saúde Mental (Barcelona), Neurolingüística (IBMR), Psicologia Analítica, Psicopedagogia Institucional e Clínica, Terapia Holística e
Metodologia dos Processos de Aprendizagem. Atua como Coordenador do Núcleo de
Psicologia e Comportamento do Instituto de Ciências Cognitivas (ICC). E-mail para correspondência: coazar@gmail.com.
Revista Eletrônica Ciências & Cognição

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