Desenvolvendo sabedoria através de narrativas

Enquanto a maioria concordaria que é bom ser sábio, como poderíamos realmente cultivar a sabedoria? Michel Ferrari e colegas (2013) propõem um caminho através do qual a sabedoria pessoal pode ser desenvolvida: engajamento com narrativas. Fazer isso pode depender de duas capacidades: (1) raciocínio autobiográfico e (2) simulação narrativa.

Esses autores argumentam que o raciocínio autobiográfico – pensamento auto-reflexivo que constrói uma identidade narrativa coerente e uma relação de pertencimento ao seu próprio mundo (paradigma) – desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de sua sabedoria pessoal. Em casos mais simples, esse tipo de raciocínio pode levar à extração de lições de vida de suas experiências diárias, pois o raciocínio mais profundo gera insights mais profundos, novas visões de mundo. Ferrari e seus colegas propõem que, se o raciocínio de alguém for (1) suficientemente sofisticado (abertura para autoquestionamentos, flexibilidade cognitiva, etc.), (2) envolver questões fundamentais da vida, (3) estiver orientado para o crescimento pessoal e (4) estiver de acordo com uma ideologia culturalmente apropriada ao seu contexto (não estar culturalmente deslocado), esse seria o tipo ideal de raciocínio autobiográfico para promover a sabedoria.

Quanto à simulação narrativa, a tomada de experiência simulada pode nos permitir entender e experimentar soluções para situações emocionais/sociais (Mar & Oatley, 2008). Dois tipos principais de simulações podem ser relevantes para o desenvolvimento da sabedoria pessoal: (i) simular narrativas emulando tomadas de decisão de figuras tidas como sábias, e (ii) simular narrativas hipotéticas sobre eventos futuros, testando possibilidades, colocando-nos como protagonistas em alguma situação futura.

Por último, os autores consideram o papel das “narrativas mestras das culturas”, que atuam como “estruturas de criação de sentido… que efetivamente [guiam] e [moldam] as histórias que contam aos outros e a si mesmas”[1]. Quando esses recursos culturais contêm instâncias de sabedoria prototípicas ou exemplares, eles permitem o desenvolvimento da sabedoria pessoal através da simulação e do raciocínio reflexivo.

Em conclusão, simulando e refletindo sobre nossas próprias narrativas de vida e sobre as dos outros, os indivíduos podem cultivar a sabedoria pessoal, como os mais sábios entre nós parecem fazer.

Referências:

Ferrari, M., Weststrate, N. M., & Petro, A. (2013). Stories of wisdom to live by: Developing wisdom in a narrative mode. In: The scientific study of personal wisdom (pp. 137-164). Springer, Dordrecht.

Mar, R. A., & Oatley, K. (2008). The Function of Fiction is the Abstraction and Simulation of Social Experience. Perspectives on Psychological Science, 3(3), 173–192. https://doi.org/10.1111/j.1745-6924.2008.00073.x

Fonte: Isabel Bowman – Research Bulletin: Fostering Wisdom through Narratives


[1] “sense-making structures… that effectively [guide] and [shape] the stories they tell to others and themselves.”